segunda-feira, 10 de março de 2014
Ucrânia
A ideia de que na Ucrânia se combate pela liberdade contra a opressão já era suspeita à partida, quando começaram as concentrações em Kiev. Era no mínimo estranho que toda a direita e extrema-direita europeias fizessem um coro unânime e histérico, laudatório dos manifestantes e condenatório dos corruptos oligarcas ucranianos. É bom que se assinale, que esses oligarcas, cavalheiros de indústria, verdadeiros criminosos que enriqueceram com o desmantelamento do antigo Bloco de Leste, têm o seu dinheirinho bem guardado na EU e nos EUA, onde dispõem de tratamento VIP. Personagens como Barroso, Hollande, Angela Merkel, Cameron, McCain, Obama, Rasmussen, Catherine Ashton, Donald Tusk, Rajoy, só para citar alguns, aliados e coniventes em recentes ingerências (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Síria, por exemplo), que outro sinal poderiam dar que não fosse o de estarem a apoiar algo muito duvidoso?
Mas o aparato dos “media”, a manipulação da informação, os agentes e comentadores de serviço que dominam o “status quo” na EU e EUA – citados permanentemente como “comunidade internacional!” -, fizeram crer a muito boa gente que se tratava duma verdadeira revolução, pela liberdade, contra o opressor russo.
A procissão ainda vai no adro mas já há indícios claros de que está muito mais em jogo do que a luta de um povo pela sua independência e liberdade. O que à partida parece estar a acontecer é o aproveitamento de descontentamento legítimo dum povo para relançar os avanços geoestratégicos a leste há muito pretendidos pela OTAN – a única organização militar que sobreviveu à Guerra Fria e que não para de expandir-se (onde lá vai o Atlântico Norte). Não deixa de ser curioso que resquícios dessa Guerra Fria estejam agora a ser ressuscitados para defender ou para atacar a Rússia… como se da União Soviética se tratasse.
O artigo de Daniel Oliveira publicado no Expresso online de hoje (10/03/14) http://expresso.sapo.pt/apresento-vos-os-defensores-dos-valores-europeus-na-ucrania=f860020 dá um contributo importante para entender o imbróglio em que esta União Europeia nos está a meter a todos. De igual modo o Jornal I, também de hoje, http://www.ionline.pt/artigos/mundo/kiev-acusada-contratar-mercenrios-da-blackwater revela que mercenários duma famosa empresa de segurança, sediada nos EUA, foram e continuam a ser utilizados para intervir na Ucrânia.
As coisas raramente são o que parecem e quase nunca são tão simples. Mas uma coisa é certa: a UE, que ainda está mergulhada numa crise, embarcou em mais uma aventura de desfecho imprevisível.
Daniel D. Dias
Nota: Sobre a empresa de segurança citada – Blackwater, agora também chamada Academi -, vide http://blackwaterprotection.com/ , http://www.motherjones.com/mojo/2009/08/blackwater-too-big-fail, http://academi.com/, http://narcosphere.narconews.com/notebook/erin-rosa/2010/08/blackwater-provided-unauthorized-training-colombia
sexta-feira, 7 de março de 2014
Cão de Pavlov
A maioria das pessoas acantona-se nas suas ideias e rejeita as dos
outros a não ser que esteja previamente disponível para concordar com elas. É
por isso que é tão pouco produtivo, tão dececionante, gastar tempo a esgrimir
argumentos. As pessoas estão tão carentes, tão desejosas de atenção, que não
procuram esclarecimento. Procuram companhia, esmolam compreensão. Paradoxalmente
estamos a tornar-nos profundamente ignorantes e mais manipuláveis do que nunca graças
aos avanços da ciência e da tecnologia que compramos e promovemos
entusiasticamente. Tornámo-nos mercadorias e somos objetos de marketing com o
qual voluntariamente colaboramos, mesmo sabendo que somos usados. Que importa?
O que é preciso é que não fiquemos sozinhos, que em alguma parte do universo
alguém nos dê razão… O cão de Pavlov pode continuar a salivar e uivar de dor,
mas quem está condicionado é afinal o próprio Pavlov.
Daniel D. Dias
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Felicidade
Felicidade é sentir-se bem? É gostar de viver? É amar e/ou ser amado? É ter objetivos na vida? É ter uma carreira (seja lá o que isso for)? A felicidade tem níveis (grande, pequena, assim, assim)? Duvido. Os gatos vadios que agora me invadem o quintal, passam fome, frio, lutam uns com os outros, amam-se, adoecem e julgo que também morrem. Serão felizes? Serão infelizes? Quando têm sol deitam-se e apanham-no, visivelmente deliciados. Numa qualquer cama, improvisada, dormem descontraídos. Quando comem algo, mesmo duvidoso, parece que o fazem com apetite, sem hesitação. Zangam-se mas também brincam. Não sei se são felizes, mas apostava que também não são infelizes. Em que são diferentes de mim? Por exemplo, nada comparam, aproveitam tudo o que tem utilidade imediata e nada guardam. Não pensam no dia de ontem e não receiam o de amanhã. Têm memória mas não são escravos dela nem têm ressentimentos. A memória para eles não passa dum instrumento, como os dentes, as unhas ou o olfato.
Bem, tudo isto é uma especulação minha, dum viciado em pensamentos. Mas os gatos sugerem-me que a felicidade – conceito que nós, humanos, temos sempre presente e nos preocupa tanto que até já se ter tornou disciplina científica - talvez seja um estado de indiferença a essa coisa de ser feliz ou infeliz…
(Não confundir felicidade com prazer, ou infelicidade com sofrimento. Há prazer e sofrimento que aparentemente não geram infelicidade e vice-versa. Quando agimos plenamente, quando amamos, pelejamos, construímos, destruímos, corremos, jogamos, não questionamos se somos felizes ou infelizes. Não temos tempo para isso. Só quando paramos, nos abrigamos ou procuramos refúgio, nos sentimos infelizes. Raramente, nessa circunstância, nos dizemos felizes. A felicidade, então, é algo que fica sempre lá para trás, num passado a maioria das vezes difuso…)
Essa coisa da felicidade é pois tramada, difícil de definir. Existirá? Quando se fala dela, já passou ou pura e simplesmente percebeu-se que, afinal, nunca existiu. Viver sem medo, tranquilamente, gostar de alguém, ser amado, sentir-se útil, não padecer de dores físicas e morais, não sofrer privações, dará prazer, será agradável. Mas será suficiente para gerar felicidade? O facto corrente de gente com tudo isso, com sucesso invejável, suicidar-se, parece mostrar o contrário.
Provisoriamente admito que a felicidade talvez exista, mas como “tendência para um limite”, como uma aspiração que incha ou emagrece ao sabor das contingências sempre variadas das nossas vidas. Ao fim e ao cabo talvez só sejamos verdadeiramente felizes quando não damos por isso.
Daniel D. Dias
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Descuidos
Quando há problemas (nos) intestinos é quase certo que, mais tarde ou mais cedo, surgirão descuidos denunciadores.
Foi o caso de António José Seguro, ontem. De manhã, na AR, o primeiro ministro elogiou o PS pela colaboração com o Governo na preparação do acordo sobre a aplicação dos fundos europeus para o período 2014-2020, congratulando-se com o facto de “o Governo e o maior partido da oposição, apesar das divergências que possam ter, tenham podido colaborar de forma tão próxima”. Ora Seguro que não se cansa de afirmar que se recusa a colaborar com o atual governo e que garante nunca desenvolver negociações que não sejam transparentes e do conhecimento público, não contestou estas afirmações. Contorceu-se, é certo, mas acabou por deixar um fedor de incómodo comprometimento a pairar no hemiciclo http://noticias.pt.msn.com/ps-colaborou-de-forma-pr%C3%B3xima-com-o-governo-sobre-fundos-europeus-%E2%80%93-passos-coelho.
Mas logo a seguir, no “Clube da Alameda”, em jeito de pré campanha eleitoral, afirmou que “os últimos quatro governos prometeram todos que não aumentavam impostos e quando chegaram ao governo aumentaram esses impostos”. Manifestou assim, de forma descarada, aquilo que há muito disfarçava: a quebra de lealdade com o seu próprio partido e em particular com a última governação socialista que - é bom não esquecer - é o álibi supremo desta corja que tomou o poder. http://noticias.pt.msn.com/seguro-critica-governos-do-ps-e-psd-por-incumprimento-de-promessas-eleitorais. Desta vez o fedor foi tão inequívoco que se sentiu por todo o país. Só lhe faltou mesmo o ruído peculiar para merecer o habitual epíteto...
Não sei se Seguro tem na mira agradar ao eleitorado descontente ou se é movido pela sub-reptícia convicção de que, afinal, os portugueses têm vivido a cima das suas possibilidades e que, não sendo simpática embora, a atual maioria está no caminho certo e faz o inevitável, o que tem de ser feito. Será por isso que nada promete? Ou será que – pura e simplesmente - nada tem para prometer?
Uma coisa parece certa: se os militantes do PS não se puserem a pau, Seguro fará ao PS o que Passos tem feito ao país.
Daniel D. Dias
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Processo Casa Pia e as imundices dos "violados" que não se lembram como foram violados e por quem...
Processo Casa Pia e as imundices dos "violados" que não se lembram como foram violados e por quem...
"Pedro Namora alegou ter sofrido "ameaças, perseguições e tentativas de difamação" pela sua intervenção a favor das vítimas de abusos sexuais na Casa Pia de Lisboa, referindo que "os maiores ataques que sofreu pertenceram ao arguido Carlos Cruz (apresentador de televisão) e ao ex-arguido Paulo Pedroso".
Mas continua a Relação:
"O acórdão do TRL agora proferido sublinha ainda que o despacho de não pronúncia de Paulo Pedroso foi mantido na Relação "não por se ter logrado demonstrar que o mesmo estava inocente, o que não se demonstrou, mas sim por não se ter logrado obter indícios suficientes que o mesmo era responsável pela prática dos actos que lhe foram imputados", ou seja "não têm o valor de declaração de absoluta inocentação" deste".
Por outras palavras, o Paulo Pedroso era culpado até provar que era inocente. A presunção de inocência que se lixasse.
"Namora afirmou ter sido avisado por uma jornalista para "se pôr a pau" quando Paulo Pedroso foi incluído no processo".
Ressonância da estupidez Judicial e dos meninos do Parque Mayer
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Fábula
O redil está preparado, os maiorais estão por aí, cantando, assobiando,
para encantar o rebanho. As ovelhas seguem tosquiadas, a tiritar, mas balem
conformadas: Agora, há menos invejas, fazem parte dum rebanho maior, magricela
é certo, mas onde há sempre alguma ovelha disponível para ouvir balidos
inconformados. “Qualquer dia… qualquer dia…” Alertam alguns ovinos, que fazem
questão de salvaguardar a esperança. E de facto muitos continuam sonhando com
pastagem viçosas onde a erva fresca nunca falta. Porém continuam retouçando
cardais, dia para dia mais tísicos, ao som do chocalhar de baladas pastorais de
tempos bíblicos.
O rebanho está cansado, farto de balir em vão. Resigna-se: Sempre
foi assim. Os maiorais acabam sempre dominando. Há que aguentar. Mas, na sua inconformidade,
vai-se consolando com pequenas coisas - tricas do quotidiano, rezas, lendas de
ovelhas que venceram o pastor tirano, mitos do pastor amigo, ovelhas ronhosas
que minam o rebanho… Como sempre fez aliás: É preciso ter esperança pois que não
há fome que não dê em fartura. E há por aí muito rebanho a passar pior que o
nosso…
Os pastores atuais são sábios. Discípulos de Skinner e Bernays sabem
que o segredo está na modulação. Ovino, rato ou humano, todos são
condicionáveis, susceptíveis de domesticar. No caso do bicho humano não há
complicação de maior: Basta que se lhe alimentem as fantasias e que nunca se
deixe contaminar pelo silêncio próprio da sua mente. Este silêncio próprio -
que é o que permite pensar por si mesmo - constitui a peste mais nociva. Equivalente
à “peste suína”, nos porcinos, ou à “doença das vacas loucas”, nos bovinos.
Mas os pastores confiam na sua técnica: sabem que enquanto
alimentarem o ruído na cabeça das suas ovelhas elas permanecerão disponíveis
para obedecer e os efeitos dessa peste serão mínimos e passageiros. Mesmo que
se revoltem, mesmo que fujam, acabarão por regressar ao redil por si só. Foram
habituadas de pequenas a seguir chocalhos, identificam-se como ovelhas, têm
roupagem, hábitos, nomes, tradições, chips, de ovelha. Como podem conceber um
mundo sem redis, que não seja dominado por pastores?
Daniel D. Dias
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Desfazendo dúvidas
Sócrates é o álibi
perfeito para a espúria confluência política que instalou no poder esta maioria
que veio destruir, sabe-se lá por quantos anos, a economia portuguesa. Por isso
deve continuar a ser atacado para justificar a escabrosa ação desta
maioria da qual o povo português está
ainda longe de se ver livre. Quem estiver atento facilmente perceberá que está
em marcha em toda a Comunicação Social um plano de reabilitação das políticas
desta governação que ainda não desistiu dos seus intentos. O ressurgimento da
projetada privatização da TAP mostra que esta seita que “governa” o país ainda
não desistiu e que até está a ganhar novo fôlego. Por isso continua a ser necessário
denegrir Sócrates seja de que forma for, e mentir, afirmando que há
crescimento, que há sinais de retoma, etc. Pudera: quando se atingem níveis
históricos de miserabilismo, qualquer cêntimo encontrado no fundo do bolso,
qualquer alface que nasça no quintal semeada pelo vento, podem influenciar o
crescimento do PIB…
Mas agora já só continua
iludido quem quiser continuar. Através da retardada e provavelmente cénica comissão nomeada pelo Parlamento Europeu “para investigar a
acção da ‘troika’ nos países resgatados”, ficam a saber-se coisas que esclarecem quaisquer dúvidas que restem sobre a
génese da atual situação. O comissário Olli Rehn, por
exemplo, esta segunda feira, negou perentoriamente que os cortes nas pensões e
as privatizações da EDP e da REN tivessem sido impostos pelos credores
internacionais a Portugal e imputou
essas decisões à exclusiva iniciativa e responsabilidade do atual governo
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=QYQ4HwQDJ9w.
Na terça feira o antigo presidente do Banco Central Europeu
(BCE), Jean-Claude Trichet, também defendeu que “se
Portugal e a Grécia tivessem cumprido as recomendações feitas no Pacto de
Estabilidade e Crescimento (PEC) teriam evitado muitos problemas, nomeadamente
os programas de regaste” http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=24&did=135669#.UtW2slVv7iE.facebook. Naturalmente Trichet referia-se
ao célebre PEC IV de 2011, cujas metas então acordadas com a Comissão, pedia que
fossem confirmadas (pelo parlamento) http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/trichet_eacute_essencial_que_portugal_confirme_metas_do_pec.html.
Como é sabido o PEC IV ao ser chumbado
pela histórica confluência do PSD, CDS, BE e PCP, fez cair o anterior executivo
criando condições para a ascensão ao poder da atual maioria.
E assim se vai,
paulatinamente, descobrindo a verdade e desfazendo dúvidas. (Vale a pena
ler/ouvir com atenção os depoimentos referidos). Mas, ainda assim, restarão
sempre duas:
Quando termina esta
desgovernança e como vão ser corrigidas as sequelas que vamos herdar; o que terá
entretanto aprendido o povo nesta provação.
Daniel D. Dias
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
O espetáculo não pode parar...
É apenas uma impressão,
nada de muito fundamentado, mas estou com o pressentimento de que está em
preparação uma mudança de ciclo em termos europeus porventura com pretensões de
influenciar o mundo. Os juros baixam por todo o lado, o desemprego desce, o crescimento
económico é revisto em alta, as agências de “rating” desvanecem-se em
prognósticos favoráveis e elogios, arrumam-se acordos à pressão, ensaiam-se
“transparências” inesperadas, anunciam-se indicadores positivos à fartazana…
Sintomático é também as liliputianas figuras do microcosmo português, se
agitarem, se esticarem nas pontas dos pés e perorarem intermináveis loas
bacocas que encontram eco nos nossos prestimosos “me(r)dia” …
Ou muito me engano ou já
está em preparação um primeiro teste dessa mudança: As eleições europeias de
maio próximo. O espetáculo não pode parar mas é preciso afastar uma previsível
pateada monumental. Para começar tratar-se-á duma mudança de cenário e
adereços, com retoques nas falas, nada de grande coisa. Entrarão em cena, claro
está, alguns novos atores para refrescar o espetáculo. Tratar-se-á duma mudança
para não mudar nada, ou, dito de outra forma, duma mudança que assegure que o
essencial não mudará.
Já lá dizia Lampedusa:
“Para que as coisas fiquem iguais é preciso que tudo mude”. Cá por mim vou
tratar de reservar um lugar. Receio que a lotação se esgote.
Daniel D. Dias
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
O "do" de Eusébio
O conceito de “do” universalmente presente na cultura japonesa por influência da tradição budista veiculada da antiga Índia, via China, ajuda, em meu entender, a perceber melhor o sentido da vida das pessoas. No ocidente tem proliferado a ideia de “carreira” com conotação semelhante à de “do” mas “carreira” fica muito aquém da riqueza semântica de “do”.
“Do” – literalmente “caminho”, “via” – tem pressuposto uma determinada ordem cósmica que encerra o sentido de todas as coisas e que está acessível a todos os seres através dele. Mas onde encontrar esse “caminho”? A resposta é: em todo lado, em qualquer coisa. A figura do círculo que em qualquer ponto se pode começar a percorrer, é a representação mais paradigmática que conheço.
Há caminhos mais burilados para procurar a harmonia com essa ordem cósmica, criados e trabalhados por mestres, famosos ou anónimos, ao longo de gerações. São famosas as chamadas artes marciais, todas elas contendo a partícula “do” no seu nome: KarateDO, juDO, AikiDO, mas também o ChaDO (“cerimónia do chá” ou “caminho do chá”) BushiDO (“o caminho do guerreiro”) Ikebana ou KaDO (“arranjo de flores” ou “caminho das flores”)…
A ideia fundamental a reter é a de que qualquer atividade - artística, científica, profissional, desportiva -, pode constituir um “do”. Claro que também pode constituir uma “carreira” mas a ideia de carreira não tem implícita a ideia de abranger o cosmos, de atingir o auto conhecimento, de ganhar o “dom de si” que trilhar um “do” pressupõe.
Vem este preâmbulo a propósito de Eusébio que acaba de nos deixar. Para mim ele é a demonstração perfeita de que o futebol e a sua prática, podem também ser uma via de aperfeiçoamento, de superação das nossas insuficiências, uma forma de integração nesse enigmático universo onde navega a humanidade.
Claro que o futebol pode ser uma feira de vaidades, uma carreira que enriquece alguns, um espetáculo que pode ter contornos alienantes que alguns aproveitam. Mas também pode ser um campo de virtudes e um método de aperfeiçoamento. Em rigor: também pode ser um “do” - um “futebolDO”. E, para que não haja dúvidas, mestre Eusébio – prefiro mestre a rei - está aí, com o seu exemplo de vida e de grande artista que foi.
Em sua memória deixo aqui este Haikai de Sigrid Spolzino que me parece apropriado ao momento
“Folhas caindo
lágrimas de inverno
temporárias”
Daniel D. Dias
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