domingo, 11 de maio de 2014

Maré de poetas


Agora entendo os poetas
que são afinal os poetas de sempre -
gente que se atreve a olhar o real
esse real quotidiano, sem importância,
quase sempre trivial
que está por ai, displicente
sem pose, nem espectativa
a moldar as nossas vidas

por aí,
no labirinto das ruas,
povoadas ou sinistramente vazias
nos cantos obscuros das gavetas desarrumadas
na pulp fiction dos quiosques decadentes
no cartão debutado esquecido no bolso
na imagem desfocada da memória
desse quase momento
no rímel escorrido na deceção da noite…

por aí,
nesse mundo que ainda vibra lá fora,
vivo e brilhante
por vezes claro e até sorridente
mas que se gasta e agasta
na poeira do egoísmo cinzento
e se afunda na grande vala comum
que a humanidade
esgravata para si própria

Sim, poetas,
qualquer um o pode ser
desde que tenha a verve suficiente
e que não a deixe amarrada
a ditos de chiste,
a cânones e bibliotecas
ou a qualquer pedaço de mármore
desses que enfeitam jardins

qualquer um
desses que não tentam ser espontâneos
quando lhe pesam mais
os conceitos empolgantes
que a vontade indómita, subversiva
de espreitar pelo buraco da fechadura

poetas, sim,
gente de insights inesperados
observadora de devaneios improváveis
de assincronismos ilógicos
que reage, alegre, triste,
ou que não reage,
mas que sempre vive tudo, com surpresa
que se apercebe sempre da nudez do rei


Agora reparo
que há multidões desses poetas por aí,
que vagueiam incógnitos,
incógnitos até de si próprios

alguns atrevem-se e revelam-se,
rebelam-se,
mas a maioria segue,
vagueia insegura, hesitante,
analfabeta ou lunaticamente erudita
desajustada, incompreendida
mas sempre, sempre
sequiosa  por realidade
pornograficamente obcecada pela verdade

essa maré de poetas que vive por aí
improvisando a vida
distorcendo a sua natureza
desbaratando o seu talento
nas obras do poder pastiche dos que mandam no mundo
se vencesse a sua inércia
se acordasse do seu torpor
se não gastasse a sua energia
a dourar a vida miserável
que rói os nossos dias

poderia num ápice
derrubar os mitos que nos amarram
e reinventar este mundo onde tudo está pronto para ser reinventado
e salvar-nos da ameaça que constituímos para nós próprios

ah, se acordassem os poetas que vivem entre nós
se a letargia que os tolhe cessasse por um tempo
o mundo tornar-se-ia num lar, senão seguro, pelo menos habitável  
e felicidade deixaria de ser o nome duma mera expectativa


Daniel D. Dias

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Helicópteros



O desmantelamento da Jugoslávia começou em 1991, na Eslovénia,  com o derrube de dois helicópteros  da força aérea jugoslava pelos separatistas eslovenos que recebiam apoio e eram incentivados na sua ação pela Alemanha democrata cristã (CDU) do Chanceler Helmut Kohl. Tudo isso ocorreu apesar do compromisso formal da Comunidade Europeia e dos EUA de preservarem a unidade da República Federativa da Jugoslávia, pós Tito.

A independência da Eslovénia ocorreu pouco tempo depois deste incidente e foi prontamente reconhecida (1992) pelos EUA e CE. Inevitavelmente, como um castelo de cartas, a esta independência, seguiu-se a mais sangrenta guerra ocorrida na Europa depois da II Guerra Mundial que matou mais de 250 mil pessoas.  A Jugoslávia, dos partisans,  que se libertou do nazismo pelos seus próprios meios, que bateu o pé a Stalin,  foi assim riscada do mapa em pouco tempo.

Ontem, 1 de maio de 2014, no leste da Ucrânia “separatistas pro Rússia” derrubaram também dois helicópteros da força aérea ucraniana. Que consequências vão ter estes atos, ainda não se sabe, mas não parece que augurem nada de bom. Porém, desta vez, a Alemanha democrata cristã, agora da Chanceler Merkel, parece não estar de acordo nem apoiar.

Conclusão: Em matéria de desmantelamento de países, para a EU e EUA, parece haver separatismos bons e separatismos maus…

Daniel D. Dias

quarta-feira, 26 de março de 2014

Tempo de impunidade, ou a problemática do "roubar pouco" e do "roubar muito"



Paula Teixeira da Cruz, a putativa ministra da Justiça do atual governo, reafirmou recentemente, de forma categórica, que “o tempo de impunidade acabou!” porque, garantiu, “seja quem for ninguém está acima da lei”  http://videos.sapo.pt/8CrqM9VaZ7ZriNZzUZqJ . Ora, para quem ainda tenha dúvidas, aqui fica a confirmação do que a ministra afirmou, como o título do Jornal de Notícias sugere: "Padeiro condenado a pagar 315 euros por roubar 70 cêntimos"  http://www.jn.pt/PaginaInicial/Seguranca/Interior.aspx?content_id=3774259. Bem entendido, a prescrição de todas as condenações do banqueiro Jardim Gonçalves recém confirmada pela justiça portuguesa http://www.publico.pt/economia/noticia/tribunal-da-razao-a-jardim-goncalves-e-deixa-cair-condenacao-do-bdp-1627422  – e que envolve o perdão de uma multa de um milhão de euros - http://www.asjp.pt/2014/03/12/juizes-investigam-perdao-de-milhao-a-jardim-goncalves/ está, naturalmente, - sempre esteve - fora deste contexto “de impunidade” referido pela ministra…

Para quem não tivesse entendido as razões deste facto aqui fica, como achega, um excerto dum sermão do Padre António Vieira, proferido há 359 anos.

“O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
(…) os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos.“
(In, Padre António Vieira, “Sermão do Bom Ladrão”- 1655)


Daniel D. Dias

sexta-feira, 21 de março de 2014

todas as flores são eternas




chegamos sós
mas construímos a ideia de que estamos acompanhados
graças à artimanha da natureza que nos arredonda as faces
torna graciosos os nossos gestos
nos transforma, por um tempo, em belas flores

depois, quando entardece, os ossos esquinam-se e endurecem
o brilho do olhar tomba sob nuvens de negras rugas
e as belas pétalas decaem em estranhas formas, que o vento arrasta


na penumbra, já poucos nos veem
e os que o fazem apenas tateiam a  memória que sobra
da vaga ideia do que pensam termos sido
ou de eventuais vestígios que largámos pela paisagem


estamos sós,
vivemos e morremos sós:
tem um custo gozar o privilégio de apreciar
as belas flores que ajudamos a dar vida…
mas não é triste, nem alegre
é apenas assim
o fazer parte da eterna paisagem mutante


mas em cada primavera
o vulto das flores caídas, os seus remotos aromas,
animam-se nos bicos das aves, nos  rebentos das velhas árvores
nos traços de cada flor...

de que podemos queixar-nos?
mesmo que não saibamos, mesmo que não demos por isso
todas as flores são eternas


Daniel D. Dia

terça-feira, 18 de março de 2014

A UE não é território ideal para qualquer utopia



Medeiros Ferreira faleceu hoje mas como se costuma dizer morre o homem e fica a obra. Não me lembro de melhor forma de homenageá-lo nesta altura, do que recordar o que suponho ser o seu último livro intitulado “Não há mapa cor-de-rosa – A história (mal)dita da integração europeia”, editado pelas Edições 70, em 2013. Este é um dos documentos mais lúcidos e esclarecedores sobre a génese da União Europeia que já tive ocasião de ler. Através dele podemos entender as razões que subjazem ao chamado projeto europeu, que teve tudo menos razões altruístas para ser implementado. Lendo livro fica claro que a UE foi um estratagema conduzido pela “direita civilizada” – a democracia (dita) cristã, apoiada pela única potência mundial que lucrou com a guerra, os EUA, para relançar a Alemanha como testa de ponte da economia ocidental. O objetivo era construir uma barreira no coração da Europa ao hipotético avanço – ou contágio - do que se entendia ser na altura o modelo socialista, algo que, em rigor ninguém sabia o que era, excepto que tinha tido a força suficiente para derrubar Hitler e ganhar a guerra.

Diz Medeiros Ferreira:

“Enquanto durou o conflito Leste-Oeste, a divisão da Alemanha e a existência de regimes de democracia de influência soviética, a Comunidade Europeia caprichou em dar respostas positivas aos desejos de desenvolvimento e de modernização dos países chamados da ‘coesão’: Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, por ordem de chegada entre 1973 e 1986. Quando acabou a noção de ‘Europa Ocidental’ e se operou a reunificação alemã, assim como o alargamento a Leste, começou a emergir o egoísmo das lógicas nacionais. Entre 1992 e 2001 passou-se num ápice da miragem da ‘Europa dos Cidadãos’ para a realidade da ‘Europa das Chancelarias’.

(…) Não há maneira de escamotear o diferente comportamento da EU antes e depois do fim da guerra fria. Mesmo a defesa e promoção dos direitos humanos no espaço de liberdade e justiça sofreu uma subalternização nítida. O facto de a EU não subscrever a Convenção Europeia dos Direitos Humanos do Conselho da Europa foi disso sintoma e prova.”

E no final, previne:

“O erro inicial foi o da fuga à vontade dos povos e ao escrutínio democrático a nível europeu. Disse-o Mendés France com clareza no Parlamento francês em Janeiro de 1957. O chamado ‘método Jean Monnet’ acabaria por criar um hiato entre a Europa dos oligarcas e dos burocratas e a Europa dos Cidadãos para surgir agora a Europa das Chancelarias. Ora, a Europa das Chancelarias não é um passo em frente em relação à história do continente. Nem na sua forma de eixo, ou directório, e muito menos sob qualquer conduta unilateral. Sendo certo que a UE não é território ideal para qualquer utopia.”

“Não há mapa cor-de-rosa – A história (mal)dita da integração europeia”, de José Medeiros Ferreira, esclarece muitos pontos obscuros desta UE que atravessa uma fase crítica da sua existência. Para conhecer melhor a Europa e compreender a atual crise mas também como forma de homenagear o político e pensador Medeiros Ferreira, sugiro a leitura urgente deste livro.

Daniel D. Dias

quarta-feira, 12 de março de 2014

Consensos



Cavaco fala da necessidade de um consenso para vencer a crise   http://www.publico.pt/politica/noticia/pr-insiste-nas-vantagens-de-um-entendimento-politico-para-o-postroika-1627777 e agora, inesperadamente, como diz Bagão Felix, aí surge um  http://expresso.sapo.pt/manifesto-de-70-personalidades-apela-a-reestruturacao-da-divida=f860221.  E é um consenso a sério, transversal, como há muito não se via na sociedade portuguesa. Cavaco vai ficar contente? Claro que não, pois não é este tipo de consenso a que Cavaco chama “consenso”. Cavaco (economista) tem a mesma visão que Salazar (economista) tinha para Portugal. Um Portugal, pobre, rústico, (Cavaco elogia o regresso aos campos…), bem comportado, de boina na mão. Um Portugal de “consensos” obtidos em câmaras corporativas onde, se necessário à força, se “harmonizam” os interesses dos ricos e dos pobres.

Ou muito me engano ou Cavaco irá contestar este consenso por achá-lo "inoportuno", como lhe chamou o Gelatina Estridente, por exemplo, ou argumentando com uma qualquer roteirisse daquelas a que já nos habituou. Ou então, pura e simplesmente, vai ignorá-lo. Este tipo de consensos é algo muito pouco agradável para Cavaco. É que fica completamente à vista que o verdadeiro chefe deste (des)governo, não é o gauleiter Passos, mas o próprio Cavaco.


Daniel D. Dias

segunda-feira, 10 de março de 2014

Ucrânia



A ideia de que na Ucrânia se combate pela liberdade contra a opressão já era suspeita à partida, quando começaram as concentrações em Kiev. Era no mínimo estranho que toda a direita e extrema-direita europeias fizessem um coro unânime e histérico, laudatório dos manifestantes e condenatório dos corruptos oligarcas ucranianos. É bom que se assinale, que esses oligarcas, cavalheiros de indústria, verdadeiros criminosos que enriqueceram com o desmantelamento do antigo Bloco de Leste, têm o seu dinheirinho bem guardado na EU e nos EUA, onde dispõem de tratamento VIP. Personagens como Barroso, Hollande,  Angela Merkel, Cameron, McCain, Obama, Rasmussen, Catherine Ashton, Donald Tusk, Rajoy, só para citar alguns, aliados e coniventes em recentes ingerências (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Síria, por exemplo), que outro sinal poderiam dar que não fosse o de estarem a apoiar algo muito duvidoso?

Mas o aparato dos “media”, a manipulação da informação, os agentes e comentadores de serviço que dominam o “status quo” na EU e EUA – citados permanentemente como “comunidade internacional!” -, fizeram crer a muito boa gente que se tratava duma verdadeira revolução, pela liberdade, contra o opressor russo.

A procissão ainda vai no adro mas já há indícios claros de que está muito mais em jogo do que a luta de um povo pela sua independência e liberdade. O que à partida parece estar a acontecer é o aproveitamento de descontentamento legítimo dum povo para relançar os avanços geoestratégicos a leste há muito pretendidos pela OTAN – a única organização militar que sobreviveu à Guerra Fria e que não para de expandir-se (onde lá vai o Atlântico Norte). Não deixa de ser curioso que resquícios dessa Guerra Fria estejam agora a ser ressuscitados para defender ou para atacar a Rússia… como se da União Soviética se tratasse.
 
O artigo de Daniel Oliveira publicado no Expresso online de hoje (10/03/14) http://expresso.sapo.pt/apresento-vos-os-defensores-dos-valores-europeus-na-ucrania=f860020 dá um contributo importante para entender o imbróglio em que esta União Europeia nos está a meter a todos. De igual modo o Jornal I, também de hoje, http://www.ionline.pt/artigos/mundo/kiev-acusada-contratar-mercenrios-da-blackwater  revela que mercenários duma famosa empresa de segurança, sediada nos EUA, foram e continuam a ser utilizados para intervir na Ucrânia.

As coisas raramente são o que parecem e quase nunca são tão simples. Mas uma coisa é certa: a UE, que ainda está mergulhada numa crise, embarcou em mais uma aventura de desfecho imprevisível.

Daniel D. Dias

Nota: Sobre a empresa de segurança citada – Blackwater, agora também chamada Academi -, vide http://blackwaterprotection.com/ , http://www.motherjones.com/mojo/2009/08/blackwater-too-big-fail, http://academi.com/, http://narcosphere.narconews.com/notebook/erin-rosa/2010/08/blackwater-provided-unauthorized-training-colombia

sexta-feira, 7 de março de 2014

Cão de Pavlov



A maioria das pessoas acantona-se nas suas ideias e rejeita as dos outros a não ser que esteja previamente disponível para concordar com elas. É por isso que é tão pouco produtivo, tão dececionante, gastar tempo a esgrimir argumentos. As pessoas estão tão carentes, tão desejosas de atenção, que não procuram esclarecimento. Procuram companhia, esmolam compreensão. Paradoxalmente estamos a tornar-nos profundamente ignorantes e mais manipuláveis do que nunca graças aos avanços da ciência e da tecnologia que compramos e promovemos entusiasticamente. Tornámo-nos mercadorias e somos objetos de marketing com o qual voluntariamente colaboramos, mesmo sabendo que somos usados. Que importa? O que é preciso é que não fiquemos sozinhos, que em alguma parte do universo alguém nos dê razão… O cão de Pavlov pode continuar a salivar e uivar de dor, mas quem está condicionado é afinal o próprio Pavlov.


Daniel D. Dias

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Felicidade


Felicidade é sentir-se bem? É gostar de viver? É amar e/ou ser amado? É ter objetivos na vida? É ter uma carreira (seja lá o que isso for)? A felicidade tem níveis (grande, pequena, assim, assim)? Duvido. Os gatos vadios que agora me invadem o quintal, passam fome, frio, lutam uns com os outros, amam-se, adoecem e julgo que também morrem. Serão felizes? Serão infelizes? Quando têm sol deitam-se e apanham-no, visivelmente deliciados. Numa qualquer cama, improvisada, dormem descontraídos. Quando comem algo, mesmo duvidoso,  parece que o fazem com apetite, sem hesitação. Zangam-se mas também brincam. Não sei se são felizes, mas apostava que também não são infelizes. Em que são diferentes de mim? Por exemplo, nada comparam, aproveitam tudo o que tem utilidade imediata e nada guardam. Não pensam no dia de ontem e não receiam o de amanhã. Têm memória mas não são escravos dela nem têm ressentimentos. A memória para eles não passa dum instrumento, como os dentes, as unhas  ou o olfato.

Bem, tudo isto é uma especulação minha, dum viciado em pensamentos. Mas os gatos sugerem-me que a felicidade – conceito que nós, humanos, temos sempre presente e nos preocupa tanto que até já se ter tornou disciplina científica - talvez seja um estado de indiferença a essa coisa de ser feliz ou infeliz…

(Não confundir felicidade com prazer, ou infelicidade com sofrimento. Há prazer e sofrimento que aparentemente não geram infelicidade e vice-versa. Quando agimos plenamente, quando amamos, pelejamos, construímos, destruímos, corremos, jogamos, não questionamos se somos felizes ou infelizes. Não temos tempo para isso. Só quando paramos, nos abrigamos ou procuramos refúgio, nos sentimos infelizes. Raramente, nessa circunstância, nos dizemos felizes. A felicidade, então, é algo que fica sempre lá para trás, num passado a maioria das vezes difuso…)

Essa coisa da felicidade é pois tramada, difícil de definir. Existirá? Quando se fala dela, já passou ou pura e simplesmente percebeu-se que, afinal, nunca existiu. Viver sem medo, tranquilamente, gostar de alguém, ser amado, sentir-se útil, não padecer de dores físicas e morais, não sofrer privações, dará prazer, será agradável. Mas será suficiente para gerar felicidade? O facto corrente de gente com tudo isso, com sucesso invejável, suicidar-se, parece mostrar o contrário.

Provisoriamente admito que a felicidade talvez exista, mas como “tendência para um limite”, como uma aspiração que incha ou emagrece ao sabor das contingências sempre variadas das nossas vidas. Ao fim e ao cabo talvez só sejamos verdadeiramente felizes quando não damos por isso.

Daniel D. Dias