Lá está a rã, coaxando, a lembrar a primavera:
quanto tempo se leva cultivando ninharias
ignorando avisos do que realmente importa…
Daniel D. Dias
domingo, 1 de junho de 2014
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Dúvida
Alguém me explica para que serve a moção de censura anunciada pelo
PCP -, que conta já com o voto favorável do PS de Seguro (mesmo sem conhecer o
texto) -, sabendo-se de antemão que vai ser reprovada no parlamento dominado pela
"maioria" PSD/CDS? Será para
facilitar a vida ao inefável presidente Cavaco? Com uma moção de censura
(garantidamente) rejeitada como pode a criatura ir contra a vontade maioritária
do parlamento e convocar eleições antecipadas?
Há coisas que não entendo mesmo: Afinal a oposição quer ou não quer eleições antecipadas?
Há coisas que não entendo mesmo: Afinal a oposição quer ou não quer eleições antecipadas?
Daniel D. Dias
Rotina
Levanto-me e faço
nada pergunto senão quando quero saber
e só quero saber
quando tenho de acertar
algo que partilho com os outros
não olho para vestígios do passado
o passado só me serve
quando quero saber de onde vim
para entender o que me falta para chegar
mas não tenho pressa de chegar a nenhum lado
não me vejo ao espelho
porque esse é um gesto inútil
estou aqui por dentro de mim e sei-o bem
os que me vêm sabem como pareço
e eu nunca serei capaz de ver-me pelos seus olhos
quando me canso, paro,
brinco então, jogo, embriago-me, saboreio, venho-me,
depois deito-me e mergulho na escuridão,
adormeço
nem sombra de memória, nenhum sonho
repouso nos ternos braços da morte
Daniel D. Dias
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Votar entre sapos e cobras
Estão à vista eleições. Para já, as
Europeias, que, talvez pela primeira vez, podem ter importância crucial para a
Europa e para Portugal. Mas também as legislativas do próximo ano em Portugal -
que poderiam eventualmente ser antecipadas, se as Europeias corressem muito mal
aos energúmenos da comissão liquidatária que nos “governa” -, o que até talvez fosse viável se o Zé não
se deixasse baralhar e confundir pela algazarra que andam a fazer à sua volta e
votasse bem… Percebe-se bem o frenesim que perpassa nos “media”, que, como bons
reprodutores da “voz do dono”, vão aumentando a confusão, baralhando,
dividindo, provocando hesitação, fazendo interiorizar que a crise era algo
inevitável (e não o resultado duma política delibera e criminosa, duma agenda
de retrocesso), que vivemos a cima das nossas possibilidades, que fomos salvos
da bancarrota, que agora vamos começar a crescer, que os políticos são todos
iguais, etc., etc….
Reina a confusão mas duma coisa tenho
a certeza: na atual situação há três tipos de eleitores -dois para quem a
decisão é fácil e um para quem a decisão é muito difícil. É para este último –
o eleitor duvidoso, hesitante, que tenderá a abster-se ou a votar
precipitadamente se lhe persistirem as dúvidas - que dedico este post. Não é para o aconselhar em quem votar, mas
para lhe sugerir uma forma – a que adotei para mim próprio – de o ajudar a
vencer as suas legítimas hesitações.
Vejamos então:
Tipologia dos eleitores e o que se
espera que façam
1-
Quem está de acordo com a situação
atual, que acredita nas promessas da coligação que tem (des)governado o país
nos últimos anos, ou que tem vantagens na atual situação.
Não há muito que saber: Estes
eleitores votam na coligação que está no poder. Só se forem parvos é que o não
farão…
2-
Quem segue um cânone político, ou a
orientação dum partido, sem se preocupar demasiado com a eficácia do seu voto;
quem se preocupa mais em ser fiel a uma dada linha política do que aos
resultados eleitorais porque acredita que esse é o procedimento correto.
Obviamente, coerentemente com os seus
critérios ideológicos, estes eleitores devem votar no seu partido ou da forma
que o seu partido indicar.
3-
Quem hesita em quem votar porque
descrê nos partidos (da oposição) ou nos novos partidos, ou porque descrê nos
políticos em geral, mas que, apesar disso, pretende ser interventivo e acha que
é imperativo esta maioria de energúmenos ser afastada do poder e castigada nas
urnas.
A situação destes eleitores é mais
delicada. Deverão fazer uma escolha o mais racional possível - evitando opções
emocionais – que tenha efeitos concretos claramente previsíveis. Devem pois
procurar VOTAR ÚTIL e rejeitar liminarmente a abstenção ou o voto em branco
pois constituem certamente o grupo mais numeroso de eleitores.
Mas como proceder para determinar uma
escolha racional no controverso quadro político partidário atual que é a razão
das suas dúvidas e hesitações?
Critérios emocionais são perigosos: Um
candidato “bom” apoiado num partido com fraca implantação pode dispersar votos,
acabar por reforçar as posições da direita e não chegar sequer a ser eleito.
Mesmo critérios mais racionais são difíceis de aplicar no atual quadro
político.
Obviando esta questão, optei por um
método pouco ortodoxo mas que a meu ver conduz à melhor escolha – ou, melhor
dito, conduz à escolha mais conveniente. Sigo o princípio maoista - “defende o
que o inimigo ataca; ataca o que o inimigo defende”.
Assim, observo pelos “media” qual o
partido/candidato que é mais atacado pela coligação que está no poder. Em
termos europeus faço o mesmo: observo qual é o grupo político que o grupo de
Merkel mais ataca.
Depois, a menos que surjam factores
extraordinários que obriguem a rever toda a minha estratégia, o meu voto irá
para o partido (candidato ou família política) que foi objeto de maior
hostilidade por parte desta direita que está no poder, quer em Portugal quer na
Europa - Comissão Europeia. (Eu posso
enganar-me sobre o que devo ou não devo escolher mas os meus adversários,
esses, de certeza, não se enganam. Quem eles mais atacam é quem eles mais
temem.)
E pronto. No final provavelmente irei
engolir algum sapo mas certamente não serei engolido por nenhuma cobra.
Veremos. Seja qual for o resultado destas eleições sei que vamos ter muito
trabalho pela frente e que continuará a haver muita coisa para mudar.
Daniel D. Dias
Mais uma denúncia
Confirmando
o que já era sabido - que a crise das dívidas soberanas era antes uma crise dos
bancos e da sua vocação para a especulação e ganância - Philippe Legrain, que
foi conselheiro económico de Durão Barroso, revela um pouco mais sobre esta
crise numa entrevista dada ao Público http://www.publico.pt/economia/noticia/ajudas-a-portugal-e-grecia-foram-resgates-aos-bancos-alemaes-1635405.
É uma clara denúncia da falsidade da afirmação de que temos vivido acima
das nossas possibilidades e uma demonstração, insuspeita, da grande hipocrisia
dos que agora defendem que salvaram o país da bancarrota:
“As
pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as
previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para
se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está
mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu.
Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.”
E
explica:
“…os
Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos.
Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos
como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com
ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos
antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta
entre bancos e políticos.”
A não perder.
Daniel D. Dias
domingo, 11 de maio de 2014
Maré de poetas
Agora entendo os poetas
que são afinal os poetas de sempre -
gente que se atreve a olhar o real
esse real quotidiano, sem importância,
quase sempre trivial
que está por ai, displicente
sem pose, nem espectativa
a moldar as nossas vidas
por aí,
no labirinto das ruas,
povoadas ou sinistramente vazias
nos cantos obscuros das gavetas desarrumadas
na pulp fiction dos quiosques decadentes
no cartão debutado esquecido no bolso
na imagem desfocada da memória
desse quase momento
no rímel escorrido na deceção da noite…
por aí,
nesse mundo que ainda vibra lá fora,
vivo e brilhante
por vezes claro e até sorridente
mas que se gasta e agasta
na poeira do egoísmo cinzento
e se afunda na grande vala comum
que a humanidade
esgravata para si própria
Sim, poetas,
qualquer um o pode ser
desde que tenha a verve suficiente
e que não a deixe amarrada
a ditos de chiste,
a cânones e bibliotecas
ou a qualquer pedaço de mármore
desses que enfeitam jardins
qualquer um
desses que não tentam ser espontâneos
quando lhe pesam mais
os conceitos empolgantes
que a vontade indómita, subversiva
de espreitar pelo buraco da fechadura
poetas, sim,
gente de insights inesperados
observadora de devaneios improváveis
de assincronismos ilógicos
que reage, alegre, triste,
ou que não reage,
mas que sempre vive tudo, com surpresa
que se apercebe sempre da nudez do rei
Agora reparo
que há multidões desses poetas por aí,
que vagueiam incógnitos,
incógnitos até de si próprios
alguns atrevem-se e revelam-se,
rebelam-se,
mas a maioria segue,
vagueia insegura, hesitante,
analfabeta ou lunaticamente erudita
desajustada, incompreendida
mas sempre, sempre
sequiosa por realidade
pornograficamente obcecada pela verdade
essa maré de poetas que vive por aí
improvisando a vida
distorcendo a sua natureza
desbaratando o seu talento
nas obras do poder pastiche dos que mandam no mundo
se vencesse a sua inércia
se acordasse do seu torpor
se não gastasse a sua energia
a dourar a vida miserável
que rói os nossos dias
poderia num ápice
derrubar os mitos que nos amarram
e reinventar este mundo onde tudo está pronto para ser reinventado
e salvar-nos da ameaça que constituímos para nós próprios
ah, se acordassem os poetas que vivem entre nós
se a letargia que os tolhe cessasse por um tempo
o mundo tornar-se-ia num lar, senão seguro, pelo menos habitável
e felicidade deixaria de ser o nome duma mera expectativa
Daniel D. Dias
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Helicópteros
O desmantelamento da Jugoslávia começou em 1991, na Eslovénia, com o derrube de dois helicópteros da força aérea jugoslava pelos separatistas eslovenos que recebiam apoio e eram incentivados na sua ação pela Alemanha democrata cristã (CDU) do Chanceler Helmut Kohl. Tudo isso ocorreu apesar do compromisso formal da Comunidade Europeia e dos EUA de preservarem a unidade da República Federativa da Jugoslávia, pós Tito.
A independência da Eslovénia ocorreu pouco tempo depois deste incidente e foi prontamente reconhecida (1992) pelos EUA e CE. Inevitavelmente, como um castelo de cartas, a esta independência, seguiu-se a mais sangrenta guerra ocorrida na Europa depois da II Guerra Mundial que matou mais de 250 mil pessoas. A Jugoslávia, dos partisans, que se libertou do nazismo pelos seus próprios meios, que bateu o pé a Stalin, foi assim riscada do mapa em pouco tempo.
Ontem, 1 de maio de 2014, no leste da Ucrânia “separatistas pro Rússia” derrubaram também dois helicópteros da força aérea ucraniana. Que consequências vão ter estes atos, ainda não se sabe, mas não parece que augurem nada de bom. Porém, desta vez, a Alemanha democrata cristã, agora da Chanceler Merkel, parece não estar de acordo nem apoiar.
Conclusão: Em matéria de desmantelamento de países, para a EU e EUA, parece haver separatismos bons e separatismos maus…
Daniel D. Dias
quarta-feira, 26 de março de 2014
Tempo de impunidade, ou a problemática do "roubar pouco" e do "roubar muito"
Paula Teixeira da Cruz, a putativa ministra da Justiça do atual
governo, reafirmou recentemente, de forma categórica, que “o tempo de
impunidade acabou!” porque, garantiu, “seja quem for ninguém está acima da
lei” http://videos.sapo.pt/8CrqM9VaZ7ZriNZzUZqJ
. Ora, para quem ainda tenha dúvidas, aqui fica a confirmação do que a ministra
afirmou, como o título do Jornal de Notícias sugere: "Padeiro
condenado a pagar 315 euros por roubar 70 cêntimos" http://www.jn.pt/PaginaInicial/Seguranca/Interior.aspx?content_id=3774259.
Bem entendido, a prescrição de todas as condenações do banqueiro Jardim
Gonçalves recém confirmada pela justiça portuguesa http://www.publico.pt/economia/noticia/tribunal-da-razao-a-jardim-goncalves-e-deixa-cair-condenacao-do-bdp-1627422
– e que envolve o perdão de uma multa de
um milhão de euros - http://www.asjp.pt/2014/03/12/juizes-investigam-perdao-de-milhao-a-jardim-goncalves/
está, naturalmente, - sempre esteve - fora deste contexto “de impunidade”
referido pela ministra…
Para quem não tivesse entendido as razões deste facto aqui fica,
como achega, um excerto dum sermão do Padre António Vieira, proferido há 359
anos.
“O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com
pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
(…) os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título
são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias,
ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e
despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e
reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os
outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo
via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de
varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a
bradar: Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos.“
(In, Padre António Vieira, “Sermão do Bom Ladrão”- 1655)
Daniel D. Dias
sexta-feira, 21 de março de 2014
todas as flores são eternas
chegamos sós
mas construímos a ideia de que estamos acompanhados
graças à artimanha da natureza que nos arredonda as faces
torna graciosos os nossos gestos
nos transforma, por um tempo, em belas flores
depois, quando entardece, os ossos esquinam-se e endurecem
o brilho do olhar tomba sob nuvens de negras rugas
e as belas pétalas decaem em estranhas formas, que o vento arrasta
na penumbra, já poucos nos veem
e os que o fazem apenas tateiam a memória que sobra
da vaga ideia do que pensam termos sido
ou de eventuais vestígios que largámos pela paisagem
estamos sós,
vivemos e morremos sós:
tem um custo gozar o privilégio de apreciar
as belas flores que ajudamos a dar vida…
mas não é triste, nem alegre
é apenas assim
o fazer parte da eterna paisagem mutante
mas em cada primavera
o vulto das flores caídas, os seus remotos aromas,
animam-se nos bicos das aves, nos rebentos das velhas árvores
nos traços de cada flor...
de que podemos queixar-nos?
mesmo que não saibamos, mesmo que não demos por isso
todas as flores são eternas
Daniel D. Dia
terça-feira, 18 de março de 2014
A UE não é território ideal para qualquer utopia
Medeiros Ferreira faleceu hoje mas como se costuma dizer morre o homem e fica a obra. Não me lembro de melhor forma de homenageá-lo nesta altura, do que recordar o que suponho ser o seu último livro intitulado “Não há mapa cor-de-rosa – A história (mal)dita da integração europeia”, editado pelas Edições 70, em 2013. Este é um dos documentos mais lúcidos e esclarecedores sobre a génese da União Europeia que já tive ocasião de ler. Através dele podemos entender as razões que subjazem ao chamado projeto europeu, que teve tudo menos razões altruístas para ser implementado. Lendo livro fica claro que a UE foi um estratagema conduzido pela “direita civilizada” – a democracia (dita) cristã, apoiada pela única potência mundial que lucrou com a guerra, os EUA, para relançar a Alemanha como testa de ponte da economia ocidental. O objetivo era construir uma barreira no coração da Europa ao hipotético avanço – ou contágio - do que se entendia ser na altura o modelo socialista, algo que, em rigor ninguém sabia o que era, excepto que tinha tido a força suficiente para derrubar Hitler e ganhar a guerra.
Diz Medeiros Ferreira:
“Enquanto durou o conflito Leste-Oeste, a divisão da Alemanha e a existência de regimes de democracia de influência soviética, a Comunidade Europeia caprichou em dar respostas positivas aos desejos de desenvolvimento e de modernização dos países chamados da ‘coesão’: Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, por ordem de chegada entre 1973 e 1986. Quando acabou a noção de ‘Europa Ocidental’ e se operou a reunificação alemã, assim como o alargamento a Leste, começou a emergir o egoísmo das lógicas nacionais. Entre 1992 e 2001 passou-se num ápice da miragem da ‘Europa dos Cidadãos’ para a realidade da ‘Europa das Chancelarias’.
(…) Não há maneira de escamotear o diferente comportamento da EU antes e depois do fim da guerra fria. Mesmo a defesa e promoção dos direitos humanos no espaço de liberdade e justiça sofreu uma subalternização nítida. O facto de a EU não subscrever a Convenção Europeia dos Direitos Humanos do Conselho da Europa foi disso sintoma e prova.”
E no final, previne:
“O erro inicial foi o da fuga à vontade dos povos e ao escrutínio democrático a nível europeu. Disse-o Mendés France com clareza no Parlamento francês em Janeiro de 1957. O chamado ‘método Jean Monnet’ acabaria por criar um hiato entre a Europa dos oligarcas e dos burocratas e a Europa dos Cidadãos para surgir agora a Europa das Chancelarias. Ora, a Europa das Chancelarias não é um passo em frente em relação à história do continente. Nem na sua forma de eixo, ou directório, e muito menos sob qualquer conduta unilateral. Sendo certo que a UE não é território ideal para qualquer utopia.”
“Não há mapa cor-de-rosa – A história (mal)dita da integração europeia”, de José Medeiros Ferreira, esclarece muitos pontos obscuros desta UE que atravessa uma fase crítica da sua existência. Para conhecer melhor a Europa e compreender a atual crise mas também como forma de homenagear o político e pensador Medeiros Ferreira, sugiro a leitura urgente deste livro.
Daniel D. Dias
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