sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Brasil: Se pudesse rezava



Frantz Fanon (1925-1961), psiquiatra, pensador e combatente da luta pela libertação dos povos, que se notabilizou na descolonização da Argélia, avisou que os resultados das lutas pela liberdade e independência no mundo subdesenvolvido não seriam lineares e que poderiam mesmo ser algo controversos. Na altura, no rescaldo da II Guerra Mundial, em que se generalizavam as lutas pela independência no “terceiro mundo” – África, Ásia, América Latina -, ele apercebeu-se que a libertação dos povos submetidos à exploração colonial só seria efetiva depois de reproduzidos “in loco” os modelos de governação das potências colonizadoras. A sua experiência como psiquiatra em territórios colonizados apontava nesse sentido.

Era, para muita gente do seu tempo, algo chocante, mas estranhamente, pelos vistos, continua ainda a sê-lo para muita gente de hoje. Ele sugeria que não bastava tomar o poder para implantar um regime mais justo. Era quase inevitável que se seguisse a esse momento um período intermédio recriador de novas burguesias, nessa altura nacionais, certamente muitas delas com génese na luta anticolonial. Sem essa passagem não haveria possibilidades de êxito para implantar regimes mais avançados, socializantes, como se desejava então.

A história mostrou efetivamente que a maior parte das experiências iniciadas nos anos 50 e 60 do século passado, conduzidas frequentemente por gente idealista e abnegada ao ponto de a elas sacrificar a própria vida, deu origem a regimes muito diferentes daqueles que motivaram os seus promotores. Muitos desses regimes caíram nas mãos de novas burguesias, exploradoras, prepotentes e corruptas, por vezes tanto ou mais que as das antigas potências colonizadoras.

Todavia a tese de Fanon não era um libelo contra as lutas de libertação. Bem pelo contrário. Era um contributo para combater as impaciências “revolucionárias”.

A ideia de que se pode saltar por simples decreto, dum regime arcaico, para outro avançado, expurgando todos os vícios e males do passado, é uma ideia antiga que continua a ser propalada, especialmente por aqueles que não fazem intenção de mudar nada, porque, lá no fundo, receiam ou se opõem à mudança. Nenhuma mudança se faz sem sobressaltos, sem deceções, sem erros e sem contemporizações com situações abstrusas. Ser capaz de suportar a frustração, sem se conformar com ela mas sem nunca desistir de mudar, é um dom indispensável para levar de vencida qualquer projeto de mudança. Alguém dizia: temos de ganhar a guerra com os soldados de que dispomos. Quem diz soldados, diz povo, diz políticos, diz partidos, diz meios de comunicação social, diz cultura, diz sociedade, com todas as suas qualidades, fraquezas, defeitos, que jamais desaparecem por artes mágicas…


No Brasil estamos a assistir a uma iminente demonstração de que o retrocesso pode ocorrer em resultado da exploração destes fenómenos de impaciência, de inconformismo, que têm alguma razão objetiva, mas que são induzidos e empolados no seio da opinião pública, por propagandistas agitadores, bem treinados. É sabido que nenhum país do mundo eliminou em dez anos as desigualdades sociais, ou a miséria, e muito menos a corrupção. No entanto a eleição de Lula – antecessor de Dilma – representou, de facto, um corte com o passado e trouxe significativas mudanças ao Brasil. Em poucos mais duma década dezenas de milhões de pessoas saíram da pobreza extrema, que era crónica no Brasil, e o país passou a registar a mais baixa taxa de desemprego de sempre, facto significativo mesmo em termos internacionais. No plano mundial, pela primeira vez o Brasil assumiu-se por direito próprio como potência global, capaz de dar corpo a uma alternativa ao modelo de globalização dominante.

Estes sinais, por si só, justificariam apostar na continuidade da atual presidente. Não compreender que a supressão da corrupção não ocorrerá de um dia para o outro e que o excesso de expectativas, cultivado por quem, quando no poder, as negou sistematicamente, é algo criminoso. Decorre a clássica ligação do “purismo” esquerdista (de Marina Silva) que explora as fragilidades e contradições do partido (ou sistema de partidos) que tem gerido o Brasil, e os interesses oportunistas (candidato Aécio Neves) que representa as forças do retrocesso.

Se Dilma perder a favor de Aécio, não vai ser só a maioria da população do Brasil que vai perder. Vai perder também toda a América Latina, especialmente os seus países mais progressistas.  Mas, duma forma geral, todo o mundo perderá. É duvidoso que com Aécio no poder o Brasil concretize o projetado Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede no Brasil, concorrente do FMI e do Banco Mundial. Provavelmente os BRICS passarão a RICS e o tal banco vai parar à Índia…

Quem ganhará com a derrota de Dilma? Para além duma certa burguesia nacional, os EUA, pouco confortáveis com uma sensível perda de influência ocorrida durante este consulado petista, poderão obter alguma folga e retardar a sua imparável crise, esgaravatando um pouco mais no seu antigo quintal sul americano. É porém duvidoso que a sua amiga UE ganhe alguma coisa com isso. Bem pelo contrário.


Não sou crente, como a Marina é, mas tenho pena. Se o fosse rezava para que, com todos os seus defeitos e contradições, o PT continuasse no poder por mais uns anitos, pelo menos… Para bem de todos. Até das muitas Marinas que há por aí.


Daniel D. Dias

domingo, 21 de setembro de 2014

Benefício da dúvida


Vivemos um tempo espantoso, de imensa criatividade, de descomunal conhecimento. Podemos afirmar, sem margem para erro, que 99,999999% dos sábios da história da humanidade -, desde a pré-história mais remota, aos luminosos dias de hoje, da Antiguidade Clássica, à Idade Moderna, do tempo de Aristóteles ao tempo de Galileu, - estão todos vivos! Não é fantástico sermos contemporâneos da esmagadora maioria dos sábios de todos os tempos?

Esta constatação torna desconcertante saber que apenas uma pequena parte deste enorme potencial tenha vindo a ser usado para resolver os problemas humanos. Seria espectável que tanto conhecimento acumulado, da natureza e do próprio ser humano, fosse prioritariamente aplicado no combate às doenças, na compreensão e melhoria das relações entre pessoas e povos, e, duma forma geral na busca da felicidade.

Mas não. O melhor da ciência, é, antes de mais, aplicado na capacidade de nos matarmos uns aos outros; o maior conhecimento que adquirimos do nosso notável cérebro, é, de imediato, aplicado em técnicas de vendas e no exercício de nos enganarmos uns aos outros.

Dá vontade de concluir que a inteligência é diretamente proporcional à estupidez,  mas não quero acreditar nisso. Prefiro conceder o benefício da dúvida e pensar que o conhecimento acumulado ainda não se tornou sabedoria, ou que ainda pensamos muito com a cabeça e pouco com o coração.

Daniel D. Dias

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Novo desporto radical



Quando nos finais do século XX o filósofo Roger Garaudy  -, resistente anti nazi, destacado militante marxista e membro do Partido Comunista Francês, (do qual acabaria expulso aquando da invasão da Checoslováquia pelas tropas da União Soviética) -, declarou aderir ao islamismo numa atitude de provocação intelectual a um ocidente que ele considerava decadente e corrupto, não era certamente o islamismo dos membros do chamado Estado Islâmico ou da Al-Qaeda que tinha em mente.

As grandes religiões sempre foram pretexto para ações de todos os tipos, das mais nobres às mais retrógradas, e o Islão não é exceção. Quando na Baixa Idade Média o poder dominado pela cristandade queimava nas fogueiras do obscurantismo a sabedoria da antiguidade clássica, os intelectuais da Idade de Ouro do Islão, preservavam esses livros e promoviam as ciências e as artes. Se não fossem eles é provável que Aristóteles, Platão, Euclides, Demócrito, não fossem hoje conhecidos no mundo. As forças (ditas) islâmicas que há poucos anos dinamitaram as milenares estátuas de Buda, no Afeganistão, obviamente nada têm a ver com as dos seus antepassados dessa Idade de Ouro do Islão.

A perceção de que as religiões podem ser usadas para o bem ou para o mal, que através dos mecanismos da fé se podem manipular multidões, especialmente em períodos de crise, levou a que a maioria dos promotores da democracia moderna advogassem o laicismo, i.e., estados onde as religiões fossem livres mas se subordinassem ao poder secular.

Na era Reagan os EUA promoveram o extremismo religioso para minar o que consideravam ser a expansão soviética. Nessa linha criaram ou ajudaram a criar a Al-Qaeda e outras organizações extremistas. Foi um terrível erro que o mundo agora paga caro. A ideia que subjazia aos promotores dessa modalidade de luta política era a de que se podia gerar monstros para combater o inimigo, pois, quando fosse necessário, seria fácil eliminá-los. A realidade mostrou que as feras treinadas para combate não reconhecem os donos. Mas, apesar das crescentes evidências e ameaças, esses jogos de guerra continuam a ser alimentados. Na Líbia – cujo Índice de Desenvolvimento Humano, atribuído pela ONU, era o maior do continente africano e superior ao de muitos países europeus, antes da queda de Kadhafi – a intervenção da NATO apoiando mercenários, jihadistas, membros da Al-Qaeda, de várias proveniências, mergulhou o país na ingovernabilidade e no caos. Milhões de pessoas procuram agora refúgio nos países vizinhos ou na Europa. Muitas acabam morrendo no Mediterrâneo ou às mãos de fanáticos “religiosos”, sedentos de poder.  O Iraque, que regista milhões de refugiados e centenas de milhares de mortos após a intervenção orquestrada por Bush e seus aliados, o caos instalado dá origem a um anacrónico Estado Islâmico, que cresce em grande parte graças ao apoio dado aos rebeldes anti Bashar al-Assad apoiados pelos EUA e CE, em especial, o UK e a França. Este apoio dado conscientemente a militantes da Al-Qaeda, vindos da Líbia, da Jordânia, do Kosovo, e de outros países, designadamente da CE, Austrália e EUA, sob o pretexto duma Primavera Árabe, libertadora. Sabe-se agora, que esta Primavera Árabe, aparentemente espontânea, foi liderada e promovida por John McCain, candidato republicano às últimas eleições presidenciais americanas, que já havia contribuído para a destruição da Jugoslávia, apoiando movimentos radicais, sob um pretexto semelhante.

O extremismo baseado em ideias “religiosas” é algo antigo que parece absurdo ainda proliferar e crescer numa época de conhecimento e informação como a nossa. Mais: Dá ideia que tal “métier” se está a transformar numa espécie de novo desporto radical que atrai uma juventude - desencantada, frustrada, desempregada, alienada, revoltada -, gerada nesta sociedade dita civilizada e de consumo, que procura no holiganismo e no terrorismo um sentido para a existência.

Daniel D. Dias



sábado, 23 de agosto de 2014

Lerdaços



“É preciso escolher Israel – tanto pela causa de Israel como pela nossa.
O resto é cobardia, aldrabice, desprezo e estupidez.”

Miguel Esteves Cardoso  - Público - 20/08/2014
(http://www.publico.pt/mundo/noticia/escolher-israel-1666913)


Um néscio, por mais talentoso, letrado, presumido, acalentado, untuoso, extravagante, mimado, protegido, premiado, poliglota, conhecido, publicitado, editado, favorecido, bafejado, convencido, abençoado, agraciado, gracioso, irónico, verrinoso, exótico, cavernoso, lunático, verboso, prolixo, argumentativo, que seja; quer viva no parnaso, no nirvana, em Cascais, na Quinta do Conde, numa corte de aduladores, na Califórnia, em Cardiff, na Porcalhota, num lupanar, ou em Malavado; disponha duma corte de tias apreciadoras das suas graçolas ou dos seus arroubes românticos, faça parte dum clube com mais fãs que o de Tony Carreira ou que  tenha cinquenta mil amigos e um milhão de likes no Facebook ; continuará sempre a ser um NÉSCIO, rudimentar, boçal como a maioria dos néscios. Porém alguns, que são retrógrados e reacionários por snobismo e cagança, prefiro designá-los por lerdaços. LERDAÇOS soa melhor. Ponto.

Daniel D. Dias

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O amor faz de mim parte
é relíquia nobre e bela
que exibo na lapela
como amuleto e estandarte

há muito que é meu baluarte
abrigo de toda a procela
um seguro da sequela
de viver com pouca arte

mas houve um tempo, suspeito
que era outra a realidade
que habitava no meu peito

eram o amor e eu num só feito
ignota e estranha entidade
dum tempo mágico e perfeito


Daniel D. Dias

domingo, 6 de julho de 2014

Sobre a húmida areia, num traço
o mundo inteiro enlaço. Até
a  lua, curiosa, fez um compasso
e retardou o repique da maré

Lua: não deixes que a tua onda
esbata já a pueril aspiração
deste que num passe de magia, sonda
o mundo que lhe agita o coração


Daniel D. Dias

quarta-feira, 2 de julho de 2014

aspiração



Não quero a emoção
nem tão pouco a razão.
Não me fio nesses labirintos
do coração

Não quero a certeza
nem tão pouco a esperteza.
Não confio nesses requintes
da subtileza

Não quero a felicidade
nem tão pouco a eternidade.
Não acredito nessas tramas
da falsidade

O que quero é só amor
mas sem condição nem favor
sem procura nem oferta
e sem temor

Daniel D. Dias

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Luar


Anoiteço.
Insidiosa a penumbra
por todo o lado me envolve
e eu permaneço aqui
como crisálida desinteressada em nascer

não me movo
não contesto a sombra
que desativa memórias
observo apenas
o perto a ficar longe

é um sono
um cansaço morno
junto à fogueira que fenece
ainda assim bruxuleante

No silêncio
a voz dum cão, longínqua
o hesitante grilar dos grilos
irrompem no ruido surdo das vagas
desse mar sempre presente

Resquícios do dia
ou saudações ao luar
que surge do nada
assinalando o outro lado da vida?


Daniel D. Dias

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Eleições à vista?


Ou muito me engano ou esta comissão liquidatária a que chamam governo prepara um golpe para continuar no poder. O pretexto é, mais uma vez, o Tribunal Constitucional que não deixa o pais sair do marasmo, agora que o caricato relógio de Portas assinalou o fim do “protetorado” da troika e era suposto arrancar o futuro radioso do país. Não há exagero em afirmar que o Tribunal Constitucional é um pretexto, pois, nestes três anos de austeridade, só cerca de 15% das medidas de austeridade foram restringidas pelo TC. Tudo mais foram opções do executivo.

A mascarada chegou ao fim não por culpa da derrota nas eleições europeias, nem por causa do TC, mas porque tudo falhou e em toda a linha. O desemprego aumentou, a ruina corrói toda a sociedade, das instituições, às empresas, passando pelas famílias. Até a “indústria da caridade” foi atingida. O país empobreceu consideravelmente. O “milagre económico” anunciado percebe-se que foi um fiasco, a dívida pública agravou-se de forma escandalosa e ainda por cima o deficit continua elevado. Não há qualquer mudança. Continuamos a afundar-nos neste buraco que não para de ser escavado. Até a “saída limpa” parece ter sido sol de pouca dura pois os sacrossantos mercados borrifam-se para continuar a baixar as taxas de juro da dívida portuguesa, agora que o interregno para safar a elite que manda na Europa chegou ao fim.

Já não há qualquer expectativa e esta maioria – e certamente o seu mentor Cavaco Silva -, já não consegue disfarçar a situação de fracasso total destes três anos de sacrifícios inúteis. A derradeira oportunidade para continuar no poder e de algum modo continuar a mesma política – só vejo esta – é, convocar eleições antecipadas, o mais rapidamente possível. O ambiente é particularmente favorável pois a maioria dos partidos – e do povo – reclama eleições antecipadas. E as dificuldades criadas pelo chumbo do TC, são o pretexto que faltava…

Se forem rápidos, talvez até vão a tempo de ganhar as eleições. Por curta margem, certamente. Não será um resultado lógico, espectável, mas, com a nossa cultura política e com a comunicação social que dispomos, nunca se sabe. Mas se a coisa falhar, o que é provável, ainda lhes resta Seguro – que desespera por ser primeiro ministro e sabe que está a prazo – como alternativa para continuar no poder. Ou se aliam a ele como vencedores, ou se aliam a ele como perdedores.  Seguro é quem tem mais hipóteses de ganhar umas eleições no curto prazo – Costa pode não ter tempo para se impor -, mas nunca terá uma maioria absoluta para governar sozinho e terá de aliar-se à direita. Quem está a ver o Seguro a governar com o PCP ou o BE?

Pode ser a surpresa que nos reserva esta maltosa para os próximos dias… Mas como eu desejo estar enganado!


Daniel D. Dias

domingo, 1 de junho de 2014

Lá está a rã, coaxando, a lembrar a primavera:


quanto tempo se leva cultivando ninharias

ignorando avisos do que realmente importa…



Daniel D. Dias