segunda-feira, 7 de julho de 2014

O amor faz de mim parte
é relíquia nobre e bela
que exibo na lapela
como amuleto e estandarte

há muito que é meu baluarte
abrigo de toda a procela
um seguro da sequela
de viver com pouca arte

mas houve um tempo, suspeito
que era outra a realidade
que habitava no meu peito

eram o amor e eu num só feito
ignota e estranha entidade
dum tempo mágico e perfeito


Daniel D. Dias

domingo, 6 de julho de 2014

Sobre a húmida areia, num traço
o mundo inteiro enlaço. Até
a  lua, curiosa, fez um compasso
e retardou o repique da maré

Lua: não deixes que a tua onda
esbata já a pueril aspiração
deste que num passe de magia, sonda
o mundo que lhe agita o coração


Daniel D. Dias

quarta-feira, 2 de julho de 2014

aspiração



Não quero a emoção
nem tão pouco a razão.
Não me fio nesses labirintos
do coração

Não quero a certeza
nem tão pouco a esperteza.
Não confio nesses requintes
da subtileza

Não quero a felicidade
nem tão pouco a eternidade.
Não acredito nessas tramas
da falsidade

O que quero é só amor
mas sem condição nem favor
sem procura nem oferta
e sem temor

Daniel D. Dias

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Luar


Anoiteço.
Insidiosa a penumbra
por todo o lado me envolve
e eu permaneço aqui
como crisálida desinteressada em nascer

não me movo
não contesto a sombra
que desativa memórias
observo apenas
o perto a ficar longe

é um sono
um cansaço morno
junto à fogueira que fenece
ainda assim bruxuleante

No silêncio
a voz dum cão, longínqua
o hesitante grilar dos grilos
irrompem no ruido surdo das vagas
desse mar sempre presente

Resquícios do dia
ou saudações ao luar
que surge do nada
assinalando o outro lado da vida?


Daniel D. Dias

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Eleições à vista?


Ou muito me engano ou esta comissão liquidatária a que chamam governo prepara um golpe para continuar no poder. O pretexto é, mais uma vez, o Tribunal Constitucional que não deixa o pais sair do marasmo, agora que o caricato relógio de Portas assinalou o fim do “protetorado” da troika e era suposto arrancar o futuro radioso do país. Não há exagero em afirmar que o Tribunal Constitucional é um pretexto, pois, nestes três anos de austeridade, só cerca de 15% das medidas de austeridade foram restringidas pelo TC. Tudo mais foram opções do executivo.

A mascarada chegou ao fim não por culpa da derrota nas eleições europeias, nem por causa do TC, mas porque tudo falhou e em toda a linha. O desemprego aumentou, a ruina corrói toda a sociedade, das instituições, às empresas, passando pelas famílias. Até a “indústria da caridade” foi atingida. O país empobreceu consideravelmente. O “milagre económico” anunciado percebe-se que foi um fiasco, a dívida pública agravou-se de forma escandalosa e ainda por cima o deficit continua elevado. Não há qualquer mudança. Continuamos a afundar-nos neste buraco que não para de ser escavado. Até a “saída limpa” parece ter sido sol de pouca dura pois os sacrossantos mercados borrifam-se para continuar a baixar as taxas de juro da dívida portuguesa, agora que o interregno para safar a elite que manda na Europa chegou ao fim.

Já não há qualquer expectativa e esta maioria – e certamente o seu mentor Cavaco Silva -, já não consegue disfarçar a situação de fracasso total destes três anos de sacrifícios inúteis. A derradeira oportunidade para continuar no poder e de algum modo continuar a mesma política – só vejo esta – é, convocar eleições antecipadas, o mais rapidamente possível. O ambiente é particularmente favorável pois a maioria dos partidos – e do povo – reclama eleições antecipadas. E as dificuldades criadas pelo chumbo do TC, são o pretexto que faltava…

Se forem rápidos, talvez até vão a tempo de ganhar as eleições. Por curta margem, certamente. Não será um resultado lógico, espectável, mas, com a nossa cultura política e com a comunicação social que dispomos, nunca se sabe. Mas se a coisa falhar, o que é provável, ainda lhes resta Seguro – que desespera por ser primeiro ministro e sabe que está a prazo – como alternativa para continuar no poder. Ou se aliam a ele como vencedores, ou se aliam a ele como perdedores.  Seguro é quem tem mais hipóteses de ganhar umas eleições no curto prazo – Costa pode não ter tempo para se impor -, mas nunca terá uma maioria absoluta para governar sozinho e terá de aliar-se à direita. Quem está a ver o Seguro a governar com o PCP ou o BE?

Pode ser a surpresa que nos reserva esta maltosa para os próximos dias… Mas como eu desejo estar enganado!


Daniel D. Dias

domingo, 1 de junho de 2014

Lá está a rã, coaxando, a lembrar a primavera:


quanto tempo se leva cultivando ninharias

ignorando avisos do que realmente importa…



Daniel D. Dias

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dúvida



Alguém me explica para que serve a moção de censura anunciada pelo PCP -, que conta já com o voto favorável do PS de Seguro (mesmo sem conhecer o texto) -, sabendo-se de antemão que vai ser reprovada  no parlamento dominado pela "maioria" PSD/CDS?  Será para facilitar a vida ao inefável presidente Cavaco? Com uma moção de censura (garantidamente) rejeitada como pode a criatura ir contra a vontade maioritária do parlamento e convocar eleições antecipadas?

Há coisas que não entendo mesmo: Afinal a oposição quer ou não quer eleições antecipadas?


Daniel D. Dias

Rotina



Levanto-me e faço
nada pergunto senão quando quero saber
e só quero saber
quando tenho de acertar
algo que partilho com os outros

não olho para vestígios do passado
o passado só me serve
quando quero saber de onde vim
para entender o que me falta para chegar
mas não tenho pressa de chegar a nenhum lado

não me vejo ao espelho
porque esse é um gesto inútil
estou aqui por dentro de mim e sei-o bem
os que me vêm sabem como pareço
e eu nunca serei capaz de ver-me pelos seus olhos

quando me canso, paro,
brinco então, jogo, embriago-me, saboreio, venho-me,
depois deito-me e mergulho na escuridão,
adormeço
nem sombra de memória, nenhum sonho
repouso nos ternos braços da morte


Daniel D. Dias

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Votar entre sapos e cobras



Estão à vista eleições. Para já, as Europeias, que, talvez pela primeira vez, podem ter importância crucial para a Europa e para Portugal. Mas também as legislativas do próximo ano em Portugal - que poderiam eventualmente ser antecipadas, se as Europeias corressem muito mal aos energúmenos da comissão liquidatária que nos “governa”  -, o que até talvez fosse viável se o Zé não se deixasse baralhar e confundir pela algazarra que andam a fazer à sua volta e votasse bem… Percebe-se bem o frenesim que perpassa nos “media”, que, como bons reprodutores da “voz do dono”, vão aumentando a confusão, baralhando, dividindo, provocando hesitação, fazendo interiorizar que a crise era algo inevitável (e não o resultado duma política delibera e criminosa, duma agenda de retrocesso), que vivemos a cima das nossas possibilidades, que fomos salvos da bancarrota, que agora vamos começar a crescer, que os políticos são todos iguais, etc., etc….

Reina a confusão mas duma coisa tenho a certeza: na atual situação há três tipos de eleitores -dois para quem a decisão é fácil e um para quem a decisão é muito difícil. É para este último – o eleitor duvidoso, hesitante, que tenderá a abster-se ou a votar precipitadamente se lhe persistirem as dúvidas - que dedico este post.  Não é para o aconselhar em quem votar, mas para lhe sugerir uma forma – a que adotei para mim próprio – de o ajudar a vencer as suas legítimas hesitações.

Vejamos então:

Tipologia dos eleitores e o que se espera que façam

1-
Quem está de acordo com a situação atual, que acredita nas promessas da coligação que tem (des)governado o país nos últimos anos, ou que tem vantagens na atual situação.
Não há muito que saber: Estes eleitores votam na coligação que está no poder. Só se forem parvos é que o não farão… 

2-
Quem segue um cânone político, ou a orientação dum partido, sem se preocupar demasiado com a eficácia do seu voto; quem se preocupa mais em ser fiel a uma dada linha política do que aos resultados eleitorais porque acredita que esse é o procedimento correto.
Obviamente, coerentemente com os seus critérios ideológicos, estes eleitores devem votar no seu partido ou da forma que o seu partido indicar.

3-
Quem hesita em quem votar porque descrê nos partidos (da oposição) ou nos novos partidos, ou porque descrê nos políticos em geral, mas que, apesar disso, pretende ser interventivo e acha que é imperativo esta maioria de energúmenos ser afastada do poder e castigada nas urnas.

A situação destes eleitores é mais delicada. Deverão fazer uma escolha o mais racional possível - evitando opções emocionais – que tenha efeitos concretos claramente previsíveis. Devem pois procurar VOTAR ÚTIL e rejeitar liminarmente a abstenção ou o voto em branco pois constituem certamente o grupo mais numeroso de eleitores.

Mas como proceder para determinar uma escolha racional no controverso quadro político partidário atual que é a razão das suas dúvidas e hesitações?
Critérios emocionais são perigosos: Um candidato “bom” apoiado num partido com fraca implantação pode dispersar votos, acabar por reforçar as posições da direita e não chegar sequer a ser eleito. Mesmo critérios mais racionais são difíceis de aplicar no atual quadro político.

Obviando esta questão, optei por um método pouco ortodoxo mas que a meu ver conduz à melhor escolha – ou, melhor dito, conduz à escolha mais conveniente. Sigo o princípio maoista - “defende o que o inimigo ataca; ataca o que o inimigo defende”.

Assim, observo pelos “media” qual o partido/candidato que é mais atacado pela coligação que está no poder. Em termos europeus faço o mesmo: observo qual é o grupo político que o grupo de Merkel mais ataca.

Depois, a menos que surjam factores extraordinários que obriguem a rever toda a minha estratégia, o meu voto irá para o partido (candidato ou família política) que foi objeto de maior hostilidade por parte desta direita que está no poder, quer em Portugal quer na Europa - Comissão Europeia.  (Eu posso enganar-me sobre o que devo ou não devo escolher mas os meus adversários, esses, de certeza, não se enganam. Quem eles mais atacam é quem eles mais temem.)

E pronto. No final provavelmente irei engolir algum sapo mas certamente não serei engolido por nenhuma cobra. Veremos. Seja qual for o resultado destas eleições sei que vamos ter muito trabalho pela frente e que continuará a haver muita coisa para mudar.


Daniel D. Dias

Mais uma denúncia


Confirmando o que já era sabido - que a crise das dívidas soberanas era antes uma crise dos bancos e da sua vocação para a especulação e ganância - Philippe Legrain, que foi conselheiro económico de Durão Barroso, revela um pouco mais sobre esta crise numa entrevista dada ao Público   http://www.publico.pt/economia/noticia/ajudas-a-portugal-e-grecia-foram-resgates-aos-bancos-alemaes-1635405.  É uma clara denúncia  da falsidade da afirmação de que temos vivido acima das nossas possibilidades e uma demonstração, insuspeita, da grande hipocrisia dos que agora defendem que salvaram o país da bancarrota:
“As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.
E explica:
“…os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos.” 

A não perder.


Daniel D. Dias