quarta-feira, 27 de julho de 2016

Tarde cega


não esquecerei a cor dessa tarde:
era remota, tranquila, isenta de ameaças
havia odor a terra molhada e a feno
e o silêncio universal era pleno
de cânticos de grilos e de cigarras
salpicado dum ou outro chilreio de pássaro

tenho em conta a omnipresença do céu límpido e claro
e a certeza da água e da montanha por perto
a suscitar a sede de frescura e de sombras

eu caminhava, cego, pela tua mão
e pela proximidade do teu corpo
mas via com nitidez a terra afastar-se sob os meus pés
palmilhando o desígnio implacável do desejo

de pouco mais me lembro
retive a cor única, definitiva, dessa tarde
cor densa, comestível, que continha tudo
todas as cores, todos os ruídos
que me continha a mim e a minha própria cegueira


Daniel D. Dias

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