terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Algum dia

Algum dia

uma calidez terna
dessas de génese ignota
se insinuou em mim sem que desse por ela
e expandiu-se
pela pele, pelos braços, por todo o corpo
como uma suave febre benfazeja

e essa devassa mansa
impulsiva
ao menos por um momento
desvaneceu todo o fervilhar das ideias
das ilusões
e avassalou todos os meus desejos…
o meu coração pulsou então como um remoto quasar:
era o universo que me respirava

ah, percebi:
há mais vida para lá de mim
essa calidez subtil
esse impulso irracional
é como uma raiz que procura mais vida à sua volta
que busca um ponto para fixar-se e reexistir
e esse ponto
posso ser eu ou podes ser tu
ou pode ser a minha mão na tua mão
ou ainda
os nossos passos trilhando juntos o tortuoso caminho
deste ciclo da eternidade


Daniel D. Dias

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Que Europa é esta?



Ao que parece os chamados "rebeldes moderados", - aliados da Turquia, apoiados, armados e financiados pelos EUA, França, UK, etc. -, liquidaram um dos dois pilotos do caça russo abatido hoje por caças turcos. O avião teria violado o espaço aéreo turco, facto que a Rússia nega, ao mesmo tempo que condena veementemente esta ação. Recorde-se que estava prevista uma reunião em Ancara, para amanhã já, entre a Rússia e a Turquia, para discutir, entre outras questões, a cooperação Rússia-Turquia na luta anti terrorista. Putin durante uma conferência de imprensa, na presença do rei Abdullah II, classificou este ato como "uma facada nas costas" que terá "consequências sérias para as relações russo-turcas". O avião russo despenhou-se em território Sírio, a 5 quilómetros da fronteira turca, onde também se ejetaram os seus pilotos.  http://www.rtp.pt/noticias/mundo/turquia-abate-caca-russo-na-fronteira-com-a-siria-ao-minuto_e876345#  Um dos pilotos do avião está desaparecido e outro terá sido capturado e morto por “rebeldes” com sotaque turco. https://www.facebook.com/United.Syrian.Republic/videos/1730624370505056/?fref=nf

É o segundo incidente deste tipo que ocorre em pouco tempo mas este é particularmente grave porque configura um ato de guerra entre duas potências vizinhas, oficialmente amigas e com tradicionais boas relações. A Turquia após estes acontecimentos em vez de contactar a Rússia foi queixar-se à NATO, que logo reuniu de emergência. Putin, a este propósito, ironizou: “Querem pôr a NATO ao serviço do Estado Islâmico?”

A recente intervenção da Rússia apoiando o único exército no terreno capaz de fazer frente e liquidar o "Estado Islâmico", está a incomodar muito o mundo ocidental. A aviação russa tem destruído massivamente as infindáveis colunas de camiões carregadas de petróleo que passam tranquilamente pela fronteira turca para aí ser vendido. A quem? Naturalmente à Turquia mas também a países europeus, que – ironia das ironias - agora estão a ser atacados por esses ingratos jihadistas… Concentra-se também na destruição de armamento fornecido aos rebeldes “bons” que estranhamente passa quase de imediato para as mãos do ISIS. Entretanto o exército Sírio, graças ao apoio aéreo que agora recebe da Rússia, aumentou a sua eficácia e avança desalojando o ISIS, o que parece não agradar à aliança liderada por Obama criada com esse mesmo fim...

Este incidente vai ter certamente consequências. A Rússia joga muito da sua segurança na guerra da Síria pois, obviamente, não quer regressar aos tempos das guerras da Tchechénia. A Turquia, por outro lado, aliada dos EUA mas também da Arábia Saudita - principal promotor do terrorismo de fachada islamita -, teme o fortalecimento do povo Curdo, potencial aliado da Síria de Assad por força da circunstância de ambos os povos sofrerem às mãos dum inimigo comum. A direita turca  que reforçou de novo o seu poder, deita mão a tudo para  levar por diante o seu projeto neo otomano, designadamente recorrendo ao terrorismo jihadista, à repressão policial e ao controle fascista da informação. Foi assim que ganhou as últimas eleições. Um estado sírio, secular, e um Curdistão hostil, eventualmente independente, é tudo o que menos deseja e mais teme. Oh da guarda! então, e chama a NATO.

Perante este quadro, a Europa atual controlada pela direita (ou por uma esquerda de pacotilha) não consegue ter uma visão própria, autónoma em termos geo estratégicos. Em vez disso segue ziguezagueando, entre contradições absurdas. Responde à ameaça terrorista no seu território, emocional e demagogicamente.  Não aproveita a oportunidade para corrigir os seus erros em matéria de política externa e mais parece fazer questão em agravá-los. Implementa orientações repressivas – em vez de medidas preventivas - que pouco efeito terão em termos da segurança dos cidadãos, e que, a curto ou médio prazo, se não houver nenhuma mudança significativa entretanto, abrirá a porta a novos e mais perigosos incidentes. Em vez de se abrir a alianças inteligentes, em vez de se antecipar aos problemas, desfazendo nós que ajudou a criar, incentivando, por exemplo, o desenvolvimento económico nos países que antes colonizou, fecha-se, entrega-se nas mãos de potências que só geraram conflitos nas últimas décadas e abre as portas do poder à direita fascista.

Hollande foi a Washington receber instruções para a conversa que vai ter amanhã em Moscovo. Foi logo prevenido de que Assad e a Rússia “fazem parte do problema, não da solução”… A solução – segundo Washington -  está na coligação de estados, de que fazem parte, entre outros, a Arábia Saudita, o Qatar, e agora a Turquia, que são promotores comprovados do terrorismo… Tudo países que não respeitam as liberdades e os mais elementares direitos humanos mas que à viva força os querem impor a terceiros de que não gostam.

Pergunta-se: Que raio de socialista é este Hollande? Que Europa é esta que parece andar a clamar por uma Terceira Guerra Mundial?

Daniel D. Dias

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Gatos vadios



Gatos vadios
tão sem maneiras.

A gata no cio refugia-se num ramo alto da nogueira.
Sua cauda, ao de leve, balança:
Um disfarce para os seus temores?


Daniel D. Dias

terça-feira, 17 de novembro de 2015

acordar



perco-me no sono
abandono-me sem receio nessa floresta de sombras
onde já não habitam feras nem fantasmas

e acordo, saturado dessa proteção intangível
sempre um pouco mais nu e mais lúcido

a luz que me acorda  é cada vez mais intensa
devassa a minha mente e aniquila residuais fantasias
magoa os meus olhos cansados

fico disponível, atento, em estado de prontidão
mais do que nunca estive
e no entanto a indiferença cresce em mim
com a persistência duma hera

não estou alegre nem triste
nem tenho planos:
estou simplesmente aqui…

será isto a vida, este acordar sem projeto?


Daniel D. Dias

domingo, 15 de novembro de 2015

Coisas do meu vizinho - 2

Cruzámo-nos na escada. Desta vez fui eu que iniciei a conversa, mas com receio, confesso. As conversas com o meu vizinho são com frequência muito “puxadas” e, ainda pior, empatam-me muito tempo. Mas vi a cara dele, logo pela manhã, e parecia-me pálido - esverdeado -, consumido. Algo não estava bem.
- Vizinho, bom dia. Tá visto que não descansou.
- É verdade. Mal descansei. Tenho que cortar com a televisão… Bom dia também para si.
E parecia que ia ficar por ali. Continuou a subir as escadas. Pelo que conheço dele isso não era coisa normal. Insisti.
- Foram os atentados de Paris, está visto. Não dão mais nada e as pessoas impressionam-se…
Parou.
- Não foi nada disso. – Disse de tal modo, perentório, que mudou logo de cor. A sua cara tomou um súbito tom avermelhado.
- São as mentiras dessa canalhada que me põem assim. As mentiras e o descaramento. Os atentados já não me espantam. Revoltam-me mas não me espantam. Como sabe tenho o vício dos noticiários e acompanho mais ou menos o que vai por esse mundo. E o que vejo? É rara a semana que não há carros bomba, bombas e bombistas suicidas, a explodir. Ainda há dias um avião russo explodiu no Egipto com duzentas e tal pessoas a bordo. Todos dizem que foi uma bomba e eu acredito que sim. No Líbano, na semana passada também foram mortas dezenas de pessoas noutro atentado. E os que são mortos a toda a hora no Iraque, na Síria, na Líbia, por esses mercenários criminosos, - rebeldes “bons” e rebeldes maus do “Estado Islâmico” - também contam, não acha?
Assenti com a cabeça.
- Por isso atentados já não me tiram o sono. Pelo contrário: a monotonia de passarem horas a repetir que estão espantados, chocados, com os acontecimentos sangrentos, quase me dá sono. Esta malta estava à espera de quê? Os jovens estão desempregados na casa dos 50% ou mais. A sociedade, ignora-os, discrimina-os ou trata-os como imbecis. Que futuro lhes oferece? Participação em “reality shows” onde exibem figuras ridículas; estágios, em hipermercados como caixas, em discotecas como seguranças; empregos temporários a fazer de papagaios em “call centers” , como rececionistas, como vendedores de inutilidades ou aldrabices à comissão… Ainda por cima acirram-nos com patacoadas – é preciso vencer, ser competitivo, ambicioso… Depois é o que se vê: Alguns tornam-se marginais, drogam-se, roubam, suicidam-se, outros, empregam-se como mercenários para fazer guerras, aqui ou ali, ou então vão parar ao “Estado Islâmico”... É “trabalho” que dá dinheiro que se vê e o pessoal sente-se valorizado. Ao mesmo tempo praticam uma espécie de desporto radical. Radical a sério. Que é que se espera? Até os jogos de vídeo os mentalizam para estas coisas desde putos…
- Mas então o que é que lhe fez tirar o sono? - Perguntei curioso.
- Ora, não viu? No meio daquela panóplia de declarações de solidariedade vindas de todo mundo – e das esparvoadas intervenções do Hollande a prometer isto e aquilo e que a coisa não ficará assim -, aparece-me aquela minúscula criatura do SarKozi, com a bandeira francesa por trás como se ainda fosse chefe de estado, a prometer vinganças, correções no sistema de segurança, etc. Está a esperar voltar, pelos vistos…. e voltará mesmo! Um tipo que destruiu completamente um estado - a Líbia -, que mandou matar o chefe desse estado que lhe tinha financiado a campanha eleitoral, que é suspeito de vários crimes graves, até mesmo em França, não só não está preso, como aparece nesta altura como potencial presidente e a cagar sentenças (desculpe-me a linguagem) sobre os crimes que ocorrem em França e no mundo, em grande parte por causa dele… Como é isto possível?
As carótidas do meu vizinho, à medida que falava, inchavam de indignação. Receava que rebentasse.
- Tenha calma vizinho. Algum dia a verdade virá ao de cima… - Contemporizei eu a ver se o acalmava.
- Qual quê! Acredita nisso? Os alemães com a ajuda do Clinton e da NATO, destruíram a Jugoslávia. O Bush, com o Aznar, o Blair e o Barroso, destruíram o Iraque, o Sarkozy, com Berlusconi e o Obama, destruíram a Líbia. Se fosse só isto? Mas o pior é que a mulher do Clinton – que colaborou nisto tudo – não tarda, é presidente dos EUA e o Sarkozi, não tarda volta a ser presidente de França… O Blair, por ora não precisa: já tem um tacho para “ajudar” a Palestina. E o Bush? O Obama? E os outros? Estão todos bem. Estão todos melhor. Afinal o TPI serve para quê? Só para perseguir africanos e sérvios?
- Não sei, vizinho. Não sei mesmo. Mas deixe lá. Esta vida são dois dias e essa malta também morre… Vamos tomar uma bica?
- Pois morre, pois morre… - Ficou a rezar o meu vizinho. E ignorando o meu convite, retomou a subida da escada. Lentamente, como de costume.
Daniel D Dias

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Coisas do meu vizinho



Mal saía de casa – ia fazer umas compritas – o meu vizinho viu-me. Já sabia que ia haver conversa.
- Então vizinho, está satisfeito com a situação? – a situação, era, claro, a situação política do momento, e o meu vizinho não perdia tempo.  Ia, como de costume, direito ao assunto.
- Não sei, - esquivei-me à resposta -  ainda estou a digerir…
- Sabe o que eu penso? (Não esperou pela resposta) Estes tipos – referia-se à coligação PSD-CDS - tinham-na toda fisgada. E há já muito. Já se sabia que Sócrates era o alibi perfeito. Sendo o culpado do estado do país estes tipos podiam fazer tudo o que quisessem. O Seguro era o que lhes estava a calhar pois também alinhava com eles a culpar o Sócrates. O Costa é que lhes veio lixar o esquema. Além disso já andava a falar demais. Pô-lo como comentador não deu os resultados que estavam à espera. Por isso prenderam-no nas vésperas do congresso para eleger Costa…  Está a ver qual era a intenção?!
Não respondi. Sabia que ainda não terminara.
- Mas como não conseguiram lixar o Costa com a prisão de Sócrates, trataram de arranjar mais tempo para impedir que o PS tivesse a maioria absoluta que em maio ou junho (quando deviam ter sido as eleições) estava garantida. Lembra-se das sondagens?
Acenei-lhe que sim.
- Tudo apontava para isso. Portanto era preciso esticar mais o tempo e o “chefe” fez-lhes a vontade: marcou as eleições para outubro, altura em que já não podia dissolver o parlamento. Mas se tudo corresse como o previsto isso já não teria importância. A reeleição estaria já no papo. Havia confiança absoluta na propaganda do “seu” governo e dos governos europeus amigalhaços, baseada na ideia de que já estava tudo bem, que a crise em Portugal era coisa do passado, que Portugal não podia seguir o exemplo da Grécia... A habitual colaboração – quase total -  dos jornais e das televisões e um verão mais ameno haveriam de consolidar os resultados. Contavam ainda com os partidos da esquerda que não poupariam o PS, como, aliás, não pouparam. Já viu: A fé na vitória era tão grande que até soltaram o Sócrates na véspera das eleições…
- Vizinho: desculpe lá… - fiz menção de me ir embora mas ele ignorou o meu gesto.
- Mas o Costa trocou-lhe as voltas, percebe. Quem perde as eleições geralmente demite-se e Costa não fez isso. Se o tivesse feito os herdeiros do Seguro teriam voltado e dariam cobertura à maioria relativa da coligação a troco dumas concessões ligeiras. Costa já estava preparado e entalou-os. O que não pôde fazer antes – porque não teve maioria absoluta – fê-lo depois com uma esquerda  que sabia que se não o apoiasse ajudaria de novo colocar a direita no poder. Os eleitores dessa esquerda não lhe perdoariam. Costa fez o que já tinha ameaçado: Juntou-se a eles e formou uma maioria… Que mal tem isto?  Que não é tradição, que o povo não votou para isto…  Se calhar não, mas que importa?  O certo, certo, é que a direita  iá contava com o ovo no cu da galinha e a coisa saiu-lhe furada. Está a perceber? Estão lixados. Quando lhe convém é democrática quando não lhe convém bradam às armas. É preciso ter cuidado com esta malta…
- O vizinho é que tem de ter cuidado com o que diz. Há gente que não gosta dessa ideias… - disse-lhe sorrindo e afastando-me, desta vez decidido.
- Não se preocupe vizinho – ainda lhe ouvi, já ia eu escada a baixo – já estou velho… Borrifam-se pró que eu penso…

Daniel D. Dias


domingo, 11 de outubro de 2015

"Deus escreve esquerdo por linhas direitas"





Um amigo meu, já falecido, proferia com frequência esta curiosa frase face às controvérsias da vida política a que assistia: “Esperai que Deus escreve esquerdo por linhas direitas”. Queria ele dizer com isto que os projetos políticos da chamada esquerda, muito comprometidos com ideais exigentes e com frequência de difícil concretização, eram frequentemente viabilizados por erros da direita.

A direita, como se sabe, tem uma vantagem prática sobre a esquerda: nunca perde de vista os seus objetivos – o pote – e é capaz de tudo para lá chegar. Até de disfarçar-se de adepta furiosa dos tradicionais ideais de esquerda. A direita (a dos interesses) que é propositadamente confundida com a direita conservadora – os tradicionalistas, os avessos às mudanças – só tem em rigor esta vantagem relativamente à esquerda, termo que surgiu na Revolução Francesa em resultado da posição que os adeptos da mudança e do progresso ocuparam, por mero acaso, nos Estados Gerais, em 1789. A Nobreza e o Clero posicionaram-se à direita do rei, enquanto o “Terceiro Estado”, os representantes do povo e burguesia, se sentaram à esquerda.

Desde aí a ideia de esquerda – mais até que a de direita – ficou e tem sido interpretada de diversas formas. Todavia os conceitos básicos a que está ligada, por tradição, são os do progresso, da liberdade, da igualdade e da justiça social. A direita geralmente apresenta-se como defensora das tradições, dos ideais históricos, do conservadorismo, mas sabemos que isso, salvo raras e honrosas exceções, é um disfarce para o seu objetivo principal: apropriar-se do pote que a sociedade na sua labuta constitui.

Se as coisas fossem lineares, se não houvesse tanta confusão deliberada ou resultante da ignorância, se a ideologia dominante – modas, hábitos, formas de pensar - não fosse quase sempre a da classe que detém o poder, a esmagadora maioria do povo identificar-se-ia, naturalmente, com os ideais de esquerda. Se a direita ocupa o espaço que ocupa, se por vezes é maioritária, é porque reina muita confusão na sociedade. Ser a favor do progresso, da igualdade e da justiça social é sempre mais difícil do que ser a favor de privilégios:  pressupõe educação cívica, abnegação e até coragem.  Para a defesa de interesses egoístas pouco é preciso saber: basta não perder de vista o cobiçado pote.

É por isso que os caminhos da esquerda são difíceis de trilhar. A história parece dar preferência às lógicas simplistas da direita. Mas nem sempre é assim: A ganância ou cegueira da direita é por vezes tão estúpida que faz acordar a esquerda do seu torpor. Ou seja: a direita cria as condições objetivas para abrir caminhos à esquerda. Já aconteceu muitas vezes. “Deus escreve esquerdo por linhas direitas” é o que quer dizer.

Quem sabe se não é o que está a acontecer, agora, entre nós…


Daniel D. Dias

terça-feira, 6 de outubro de 2015

No começar é que está o ganho




Se ser de esquerda não for só retórica ou profissão de fé, com estes resultados eleitorais será possível estabelecer uma plataforma de entendimento entre os partidos que se opõem à coligação – por mais pequena que seja -, suficiente para criar uma alternativa de poder. É uma questão de brio patriótico e de sobrevivência o que está em causa. Esta “comissão liquidatária” se não for apeada rapidamente consolidará o seu poder e acabará com Portugal como país livre e independente. Mas é preciso andar depressa antes que a direita do PS, ajudada pelo jornalixo e pela ideologia dominante que transforma gradualmente os portugueses em zombies políticos, se recomponha e derrube Costa. O mais certo é o PS que se seguir - com ou sem Costa, - vir a apoiar a direita. Por mais estranho que pareça, a primeira e mais urgente tarefa que toda a esquerda tem pela frente, é pois, proteger Costa e o PS (que ele ainda representa talvez por pouco tempo mais) de ser engolido pela direita interna do PS. Não riam: é mesmo assim. Façam o favor de ver as coisas com realismo e andar depressa. Convém abster-se de embirrações, guardar as vaidades para mais tarde e avançar nesta direção: Discutir plataformas de entendimento - unificadoras, viáveis, realistas -, discreta mas rapidamente, sempre longe do jornalixo. Se progredirem nesta linha nem que seja um palmo, estou certo que tudo será mais fácil no futuro. O problema está só no começar.

Daniel D. Dias

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Cenários pós eleições 2015


1.
Se a maioria absoluta da coligação PSD/CDS não vier a concretizar-se, e se no PS -, seguindo a tradição e as aspirações do seu núcleo direitista -, se demitir o António Costa, ou muito me engano ou teremos a breve trecho um governo minoritário de direita a governar com o apoio do PS.
Bloco e PCP têm razões para rejubilar. Mais uma vez ganharam uma difícil batalha. Sobreviveram e até cresceram, mas não irão governar como parece ser, aliás, a sua secreta aspiração de sempre. Mas subtilmente contribuíram (também mais uma vez) para que Portugal continue sob a alçada da direita. Mas - entenda-se - o que carateriza desde há muito a nossa esquerda é não conseguir viver sem ter desafios de monta que lhe permitam mostrar a sua capacidade de resistência, a sua superioridade moral e a sua coragem para defender o povo. Um tanto como o rato Tom que precisa desesperadamente do gato Jerry para mostrar as suas habilidades. Sempre inimigos mas sempre inseparáveis. Sem uma direita no poder e um PS, titubeante, ruído por dissensões direitistas, como sobreviveria esta nossa esquerda?
Ou seja: Tudo leva a crer que continuamos na gloriosa senda "de vitória em vitória até à derrota final".

2.
A menos que a coligação de direita não tenha a maioria, o Costa não se demita e os que se dizem de esquerda resolvam fazer um acordo de incidência governamental, em nome duma maioria de esquerda no parlamento, e que a resolvam reclamar ao Presidente da República, de acordo, aliás, com a constituição... Tudo mudaria desta forma.
Eu não quero tirar o benefício da dúvida a este cenário mas francamente só acredito se vir alguma coisa nessa direção e até agora não vi nada.
Portugal não é de facto a Grécia onde houve eleições num dia e no outro já havia acordos parlamentares a funcionar.

_______
Mais uma vez verifico que em Portugal não é a direita que é forte. A esquerda é que é fraca, ou melhor, é a esquerda que não sabe usar os seus enormes potenciais. Enquanto a direita, prosaicamente, não perde de vista o pote dos seus interesses, a esquerda sobrepõe aos objetivos que lhe competem de conquistar o poder e de governar bem, com equidade e justiça, as eternas quezílias entre si, acerca de superioridades morais, as legitimidades ideológicas, a competição por saber quem denuncia ou reivindica melhor…
Ainda por cima a esquerda absorve toda a ideologia e propaganda veiculada pelos “media” dominados pela direita e não sabe defender o povo desse veneno. É uma situação frustrante que se continua a viver com uma grande parte da população já indiferente ao assunto. As pessoas já interiorizaram que a esquerda é uma espécie de desejo piedoso por mudanças, por justiça, mas que é irrealizável e que já está integrado no ideário direitista, que o consente ou não, segundo a sua caprichosa vontade. Quanto tempo resistirá uma democracia com estas aleivosias por mais formal que seja?
Daniel D. Dias
4/10/15

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

De vitória em vitória até à derrota final?



Será assim uma vez mais?

Não sei. Por algum tempo ainda admitirei que seja apenas mais um simulacro estratégico - ou uma trampa, como diriam os nossos companheiros castelhanos - congeminada pelos incansáveis marketeers que controlam os me(r)dia lusitanos. Mas, pelo sim pelo não, preparo-me para engolir mais um sapo, desses que abundam no atávico charco deste reino cadaveroso portuga, que persiste (não se cansa de sebasteanar), apesar das caganças de modernidade que ostenta...

E vou engoli-lo a troco de nada. Como sempre fiz, aliás.

Mas desta vez precavi-me. Desde as últimas eleições percebi que este povo de marinheiros - talvez cansado de tanto navegar em superfícies turbulentas e “mares de cabrões”-, prefere agora a mortal calmaria dos fundos marinhos, povoados, à falta de peixe, por uma frota de inúteis submarinos. E adquiri, obviamente, uma  discreta bóia, dessas familiares, para não correr o risco de partir sozinho à deriva por esses mares afora. Claro está: o omeprazol passou também a fazer parte da minha dieta. Porquê esse luxo - perguntam-me -, se deixei de frequentar restaurantes, se passei a ser obsessivamente frugal? Aí têm a resposta: Para prevenir as náuseas dos náufragos e neutralizar a acidez que todo o sapo sempre implica.

Já tinha avisado: o redil há muito está preparado. É só entrar e seguir os maiorais, sem pieguices. E não se atropelem se faz favor!

(Último aviso.)

Daniel D. Dias